segunda-feira, 23 de junho de 2014

O Casal da Mansão das Graças











O Casal da Mansão das Graças – O velho e sua Julieta



Há muito tempo, em uma noite fria de chuva e aconchego de um dia 12 de junho como hoje, lá se vão mais de quarenta anos, passei em frente à mansão da foto, na Av. Rui Barbosa, no bairro das Graças, de volta à minha casa. Nos jardins da mansão, um casal jovem, belo e extremamente elegante, trocava presentes e carinho do Dia dos Namorados. Nunca esqueci o esplendor que emanava daquele casal, rivalizando com o brilho aristocrático e o clima leve da mansão. Era noite e não havia pássaros, mas o cheiro das flores daquele jardim se confundia aos perfumes da noite; dela? Não sei.

Os anos passaram e eu então já um pai ainda jovem, passeava com meus filhos à noite e encontramos um homem muito velho, que se dirigiu a nós com uma pergunta em súplica:
- Você viu a minha Julieta?
– Julieta, que Julieta?
– Respondi mal humorado.
– A minha Julieta, o amor da minha vida. – Disse-me o velho.

Olhei para o velho com a arrogância de uma juventude insensata e plena de poder pessoal transitório e devo ter dito alguma piada de mal gosto com o sofrimento daquele ser.

Uma jovem atendente de uma locadora de vídeos me explicou então que aquele homem tivera um grande amor um dia e o tinha perdido, não sei como foi a perda, mas havia perdido a sua Julieta que desde então procurava dia e noite, por ela a perguntando a tantos quanto entrava em contato.

Então me dirigi àquele homem velho, ainda bonito e cheio de uma dignidade sofrida e me redimi, prometendo-lhe que lhe informaria se visse a sua Julieta. O velho agradeceu em lágrimas e se foi pela noite, em busca de sua amada.

Hoje, após um dia excepcionalmente bem sucedido em todos os campos e esferas a que um velho como eu possa almejar, passei em frente à mesma mansão, hoje ao abandono, sem jardins, flores nem brilho, mas conservando ainda o seu porte magestáltico e lembrei mais uma vez daquele casal da minha distante infância e daquele velho da minha juventude nem tão jovem assim, que procurava a sua Julieta, a quem inicialmente menosprezei e isso me fez parar na chuva, olhar outra vez para aqueles jardins hoje secos e invocar a força do amor e bem aventurança daqueles jovens e daquele velho, uní - los em um só e redistribuí-los àquele homem e sua Julieta aonde quer estejam, para que se reencontrem e se realizem , unidos em uma única alma, dois seres que se perderam na vida ee me senti como se tivesse realmente feito alguma coisa...

Não sei se pela força da imaginação ou por obra de algum Cupido, vi aquele homem velho e sua Julieta se reencontrando naquele jardim de repente renovado em esplendor como daqueles tempos idos, sorrirem um para outro, dividirem presentes e carinho, para envolvidos num súbito brilho ofuscante, se desvanecerem no tempo e no espaço infinito...

Desejo um feliz Dia dos Namorados Namorados e que jamais, jamais percam sua Julieta ou seu Romeu.

Elas, amigas.




Elas, amigas.

26 de maio de 2012 às 22:59
Oi, amiga.Oi, amiga.

Ser.

Fenece todo o valor do ser
Quando necessário se faz o querer.
Pois não é o querer o não ser?
O não ter?

Eis que num ápice o espírito retorna a essência do ilusório.
O cheiro emanado das plantas, as folhas, flores e a própria
Visão; tudo embalado ao vento que
Sem distinguir acalenta e mitiga
E tem-se de volta o prazer da simples companhia um do outro;
Compartilhar uma parcela mínima de espaço, que se desdobra
Ao ponto de inverter tudo e ser
O próprio infinito a parcela.
Então fenece o querer
E todo valor se resume no ser

VEM





VEM.

7 de dezembro de 2010 às 15:35
VEM...

De repente o mundo é grande demais e o tempo passa
Lento em excesso.
É um espaço imenso, provocando a conquista, rindo-se
Dos limites e das cautelas, impacientando, impondo
Uma vontade de se romper correndo qualquer distância,
Por menor que seja ela.
É preciso correr.
Correr como uma criança que não sabe o que é andar nem
Pensar, porque no segundo seguinte pode-se estar velho
Demais.

Paixão!
Doce, comum,
Raro...
Dá-nos a força de um deus olímpico, para girar o mundo
Mais rápido e ser um novo dia.
Dama, prostituta, recatada, extrovertida, tudo...
Paliativa e fatal.
Mola acionada no interior da gente ao simples som do
Vem...

Fogo inconsequente.
Incendiando os celeiros da existência nos calmos
Campos do viver
Mágica emprestando inocência a sedução.
Fica...
Ânsia de se ir ao encontro.
Temor fantasma de um vai agora...é tarde.

O Natal de Prometeu







O Natal de Prometeu

24 de dezembro de 2010 às 19:51
Um Conto de Natal – 2010.

O Natal de Prometeu.


Aquela poderia ter sido uma noite semelhante a tantas outras passadas, menos sentidas. Seria, conforme aparentava, longa e fria; tolhedora de movimentos, musa de pensamentos. Um frio intenso dominava os ares, inibindo o acesso a rua e ao mundo. Chuva! Frio! Vento e mais vento, rugindo, afugentando...

No interior de um cubículo, um jovem solitário, agasalhado, aquecido por fora, pensa. Seus olhos se dirigem ao teto sem vê-lo, movem-se para um lado, sonhadores, mas não de esperança.Antes nostálgicos.

Livros enfileiram-se ao redor. Livros diversos, escritos muitos! Contos, romances, lendas, novelas; livros didáticos, técnicos, científicos; toda a grande família literária representada ali.

O jovem se levantou e tomou um dos livros entre as mãos, folheou-o rapidamente , tentou concentrar-se mas desistiu, atirando-o com enfado a um canto da sala. Muito gostaria se com o livro jogado fosse também sua angústia, mas tal não aconteceu.

Caminhou descoordenadamente, como um bailarino louco, descrevendo círculos e mais círculos ao redor de si. Seus olhos mais uma vez se voltaram para o teto, então como uma súplica, não atendida. Voltando-se outra vez aos companheiros letrados, encarou-os hostil e um jorro de palavras brotou de si, insensatamente. Mostrava suas chagas, falava das suas dores, sem esperança de efeito algum. Com gestos dramáticos, continuou seu discurso que jamais seria ouvido por ninguém...


- Vejam! Vejam o que fizeram de mim. Eu que tanto confiei em vocês, que de corpo e alma entreguei-me a atendê-los, a tomá-los como conselheiros.Curvei-me sobre suas páginas durante anos e permiti que ocupassem um lugar de destaque em minha vida. Que faço agora, parasitas? Tenho ainda a insensatez de lhes perguntar, falsos companheiros, amigos hipócritas, objetos inúteis.

Fantasias, coisas que não existem na vida real!

Por que não se apagam? Por que não desaparecem? Por que ficam aí, olhando-me calados, dando-me a impressão de que riem com ironia dos meus sentimentos? Para que servem vocês, afinal? Como seria bom jamais ter acreditado em contos de fada, em histórias de Natal.

O jovem desistiu e fazendo com a mão um gesto de abandono, tentou acalmar-se. Amante do silêncio do recolhimento, desejava que naquele instante alguém batesse à sua porta. Alguém com quem pudesse conversar, dividir seus pensamentos. Mas não havia consolo algum.

Próximo à sua mesa de trabalho, várias folhas de papel meio em branco, meio escritas, aguardavam e muitas outras amassadas transbordavam o cesto ao lado que se ria da impotência do escritor. As idéias fugiam-lhe impiedosas, brincando insensíveis com a ausência de inspiração...

Apagou as luzes e acendeu uma vela. Sentou-se ao chão como o fazia quando criança e fez um pedido ao Papai Noel em que já nem acreditava mais, chorando lágrimas sentidas de uma infância precocemente perdida.

As sensações do mau tempo foram aos poucos sumindo, dissolvendo-se no ar e já não havia trovões nem relâmpagos quando o jovem percebeu que estava acompanhado por uma personagem estranha.

Era uma mulher, grande, volumosa mesmo, cujas dimensões agigantadas não impediam em nada sua leveza de gestos. Movia-se com ares de senhora, de rainha. Todo o seu ser aristocrático denotava nobreza, esplendor no trato, nos gestos no olhar. A presença caminhou descrevendo uma coreografia fantástica, impressionando o jovem, que, extenuado, resolveu não reagir mas apenas observar aquele ser que lhe parecia familiar. Seu rosto austero era fascinante e iniciaria ele uma conversa, não tivesse o que lhe restava de bom senso lhe indicado que aquilo não era real.

Mas era quase palpável, pensou. Tentou estender a mão e tocar a venerável senhora, mas naquele momento percebeu que não era mais dono dos seus movimentos. Resolveu entregar-se a tudo e viver aquele momento que ao menos era novo e excepcional. Poderia ser apenas o sonho de um espírito cansado e descrente, mas era tão bonito!

A digna senhora caminhava altiva e a medida em que o fazia, desapareciam as paredes do lugar, aumentando os espaços que se estendiam ao infinito.

Uma outra figura entrou em cena; um homem desta vez, pequeno e magro, ligeiro. Parecia satisfeito com o que era, sem grandes pretensões, expressivo em suas reduzidas dimensões.

Aconteceu de se encontrarem. Pararam, olharam-se, mediram-se. O homem sorriu divertido. A senhora manteve-se inabalável. Para maior assombro do jovem prostrado, tinham vozes. Foi a senhora quem primeiro falou, dirigindo-se ao segundo personagem:

- Ora! O que faz aqui, meu rapaz? Você é...se não estou equivocada, o Conto, não é mesmo?

-  Madame Lenda! Sou mesmo o Conto. Causo-lhe espanto?

- Oh, não! Você está sempre a se imiscuir em todos os lugares.

- Observo que há um leve toque de má vontade em sua voz, Lenda. Incomodo-a?

- Incomodar-me? Quanta presunção!

O Conto sorriu, meio encabulado, meio complacente. Sabia que teria de ser paciente com aquela digna senhora toda cheia de aspectos a ser interpretados, misteriosa e bela, cheia de vigor e paixão, dominante na história do mundo.

Teria definitivamente enlouquecido? – Perguntava-se o jovem que tentou falar mas não conseguiu. Todos aqueles anos de estudos e livros, escola e Escolas, fizeram-no de uma vez por todas perder a razão? Eram apenas perguntas curiosas, desprovidas de quaisquer indícios de angústia. Se aquilo fosse verdade, então estariam solucionados seus problemas de senso crítico, a coerência já não importaria e ele poderia habitar o mundo da fantasia sem ser chicoteado pelas torpezas da vida comum.

Naquele instante os dois personagens pareciam estar com problemas, pois apesar de tentarem ser gentis um com o outro, era evidente que os separava uma grande diferença. Voltou-se a Lenda ao Conto numa visível admoestação:

- Por que me olha como seu eu fosse uma figura mitológica , pequeno Conto? Quer parar de andar colado aos meus passos, sempre à minha sombra? Não vê que estou ocupada, tentando explicar o inexplicável? Como me aborrece os escritozinhos ligeiros como você, tão presunçosos, tentando simplificar, reduzir tudo. O que pensam que são?

- Mas eu não penso, Lenda. Eu sou. Não creio, porém, que a senhora queira realmente explicar o inexplicável.Ao contrário. De qualquer forma, quero render-lhe minhas homenagens, pela forma rica e imaginosa com que apresenta o mundo e os homens notáveis ao mundo e aos homens não notados.

- Acaso ouço um toque de sarcasmo em sua voz, pequeno Conto? Atreve-se você a desafiar a mim, a Lenda? Meu rapaz, você está confuso, comparando-me a uma das superficiais mulheres que povoam suas páginas.

- Não tomarei muito seu tempo, senhora Lenda. Como a senhora sabe, sou breve, quase telegráfico mas consigo sempre, em poucas palavras, dizer tudo o que diz outras obras em milhares de páginas.

- Sim, sim. Prossiga, pequenino!

- Será que a senhora não sente nem um pouco o mal que tem causado a esse pobre rapaz, aí largado no chão frente a luz de uma vela? Com sua internacionalidade, atemporalidade, atirou à cabeça do rapaz páginas e mais páginas de Hércules, Pégaso, Teseu e seu famoso Minotauro, Fadas Madrinhas...

- Mitológico, rapaz, mitológico; é de muito mal gosto essa história de Minotauro famoso, mas é de seu feitio falar assim e o que tem as  Fadas Madrinhas?

- Desculpe-me. Mitológico, lendário, isso tudo acaba ficando famoso, mas deixe-me prosseguir. A senhora causou uma influência profundamente danosa. Fadas Madrinhas... Papai Noel...presentes que surgem do nada...ora faça-me o favor!

- Papai Noel, sim, por que não?

- Por que não! Esse Prometeu acorrentado aí está condenado a ficar, pelos séculos fora, morrendo aos poucos sem nunca morrer de verdade , pois é imortal, lamuriando-se para sempre. Quanta tolice e quanto desperdício de tempo, mente, juventude!

- E você se considera a solução para os problemas do nosso Prometeu, não é, meu jovem?

- Não é bem assim, senhora, mas muita coisa poderia ser evitada com sua ausência. Nem todos são heróis, semi-deuses ou deuses, conforme a senhora apresenta. A senhora tem fórmulas para concluir suas mensagens que com o tempo se tornaram obsoletas. No final, por maior que sejam os castigos impostos aos seus personagens, quase sempre terminam premiados por seus esforços. Mas não é aí que reside o verdadeiro problema. A senhora dá consciência e um certo grau de moralidade ao opressor. Ele reconhece o labor do oprimido. Põe-lhe obstáculos a sua vida, mas curvam-se perante o valor, a força da perseverança e do ideal elevado. Afasta, assim, a verdadeira face, a realidade dura e crua dos seres mesquinhos que, na maioria das vezes, represento-os eu, em meu conteúdo. A senhora volta-se para o grandioso, esquecendo-se de que existe o ordinário e com isso faz com que o ordinário se sinta mais ordinário ainda.


O conto teria continuado a falar, não fosse um gesto súbito da Lenda, que sem para ele se voltar mostrou-lhe a palma da mão, num pedido de espera, de pausa. A lenda manteve-se em silêncio. Parecia pensar e medir as palavras do Conto. Quando falou, sua voz transparecia algo de ternura, uma pequena dose de severidade, um que de crítica e um mundo de compreensão.

- E o que me diz, pequeno Conto, da sua Menina dos Fósforos? Parece-me que você está se perdendo em divagações, confundindo tudo.

- Quem?

- A sua Menina dos Fósforos, pequeno Conto. – Respondeu a Lenda, pacientemente. – Pobrezinha. É isso que você chama de realidade?. Não! Não fale agora. Apenas escute, por favor.

A Lenda abriu os braços numa completa dação de seu corpo e exposição das suas mãos, dos seus motivos. O jovem solitário sentiu-se chamado a amparar-se naquele seio convidativo, maternal; fazer parte daquele mundo que era apresentado com tão grandiosa mímica, tão rica em figuras de beleza ímpar. Como se ao abrir os braços descerrasse os véus do passado, da existência presente e do futuro, inúmeras figuras surgiram aos olhos do jovem, representando as imagens que lhe povoavam a mente. Um casal de índios apaixonados, desafiando um deus terrível, fugiam numa canoa de tronco, deslizando sobre um rio revolto e desaparecendo por entre as fúrias desencadeadas por aquele mesmo deus. Em uma outra cena, do corpo de uma indígena branca morta, surgia o alimento salvador das vidas dos de pele cor de bronze. Mais adiante, num desfile por ordem de entrada, uma jovem mirando um lago apaixona-se pela lua, julgando-a um grande e poderoso guerreiro que ela sabia estar acima de si mergulha em busca do seu amado, para surgir depois em forma de flor.

A espécie oriental fora comparada ao ser humano, vindo do lodo a emergir radiante. Por que a espécie ocidental tem que afundar para só depois vir à luz?

Cenas de luta e glória surgiam a cada instante. Solidão sem medo e sem carência; recolhimento por opção era demonstrada constantemente. Objetivos; prometedores de tempos melhores eram a tônica, o ideal que levava a situação desejada. E a Lenda, unindo as mãos, agasalhando-as uma a outra, levou-as em direção ao peito e tornou a falar.

- Você diz, pequeno Conto, que eu escondo a verdadeira face da vida, que negligencio a realidade, mas veja! Eu venho acompanhando o mundo desde os primórdios da sua curta existência e conto os fatos que a imaginação comum jamais poderá conceber e supondo que consiga, jamais poderá expressar.

Se uma vez ou outra dei à luz seres que se perdem em lamentações, dominados pela auto comiseração angustiante, a expressarem-se por monólogos que falam de si e da impiedade dos seus algozes - se assim são ingenuamente interpretados -, nada mais fiz que demonstrar a inexistência de seres que possam de bom grado assimilar as mensagens de injustiça e falar por aqueles que se encontram acorrentados, vitimas da pseudo justiça...

Mas eu conto histórias de notáveis, como tão bem você se expressou. Pergunto-lhe, pequeno: existe realmente ordinário e notável? Eu anuncio a luta de gigantes e os mostro como gigantes que são. Eu sito heróis e semi deuses e não acredito na existência dos que não o sejam, mas sim, daqueles que deixaram-no de ser e tento por meio do que digo mostrar que algo mais existe, muito além da nossa visão limitada. Não só demonstro aquilo que pode atingir mas a capacidade do esforço e do combate libertador; a possibilidade de vencer o invencível tido como tal.

Com páginas e páginas de figuras mitológicas influenciei negativamente o jovem ali, diz você. Por que, pequeno Conto? Por que é negativa minha influência? Por mostrar um mundo grandioso? Por mostrar que o aparentemente irreal, o fantástico, nada mais é que a suposta realidade desprovida de máscaras? Por que me acusa de uma coisa que eu não sou? -

O Conto, embaraçado, tentava disfarçar, mas disse impiedoso:

- Você, Lenda, fez com esse jovem pensasse que era um dos seus notáveis sem o ser.

- Sinto saudades, pequeno Conto, dos seus tempos de criança. Olhe para trás e diga-me, quem mais o iludiu, Conto Infantil?

E a Lenda que tudo pode, com um simples gesto fez retroceder o tempo. O Conto assustou-se mas não recuou ao contemplar seu passado. O jovem, pasmo, foi atirado do chão a um mundo de casinhas de açúcar e chocolate, florestas de doces e guloseimas, rios de mel, sem tempo ou distâncias, subiu colinas intransponíveis e deparou-se com belos e suntuosos castelos. Andou por suas paragens e parou em seus corredores. Transpôs escadarias de mármore branco salpicado de estrelas doiradas, encontrou-se com príncipes e princesas, brincou com cãezinhos e lutou com monstros terríveis. Protegeu ovelhas e rechaçou lobos ferozes.

O conto sorriu dos seus tempos idos. Parecia envergonhado, como um adulto impafioso que de repente se vê diante de uma foto sua, nu, brincando com um coelhinho de pelúcia, tão fofinho quanto ele próprio.

Não havia desafio na voz da Lenda, que soava tranqüila e bondosa ao perguntar:

- E então, pequeno Conto, o que me diz? Onde está o seu Patinho Feio?

- Heim?

- O seu Patinho Feio, querido Conto. Como foi lindo o momento em que ele descobriu-se um cisne. O mais belo dentre os seus. Por que não diz ao nosso Prometeu que um patinho feio é o que é e nada mais e que um cisne sempre o foi? Onde está a realidade, afinal?

- Eu era infantil. – Desculpou-se o Conto, e parecia triste.

A Lenda, compreensiva, aproximou-se e o abraçou, agasalhando-o de encontro ao seu grande coração. Sorria, mas uma lágrima brilhou e escorreu pela face da lenda, salpicando o chão com milhares de gotinhas refletindo a luz da vela, e Prometeu viu surgir um Romance muito elegante, mas visivelmente apreensivo com a hostilidade dos Compêndios Técnicos e Científicos que portavam luvas e capacetes, jalecos e capas pretas, armas e bisturis afiados, balanças e espadas de forma muito perigosa por que alguns tinham os olhos vendados.

Cada um tentava se impor e ao encontro daquele grupo barulhento surgiram Novelas, Crônicas, Dramas, Poesias, Prosas, Peças Teatrais e mesmo Roteiros. Até uma gigantescas Ópera se fez presente, bradando tão alto, mas tão alto mesmo e tão longamente que traía suas origens de povo esquecido, tentando fazer-se ouvir pelo imperador distante.

Formou-se uma grande confusão. O ar cada vez mais quente desmanchava a maquiagem das Peças e muitas tinham já o corpo à mostra. A Ópera já estava rouca. A Poesia se fora. Só o Drama continuava firme.

Os Compêndios Técnicos e Científicos resolveram que não tinham nada ver com aquela situação, não estavam ganhando nada com aquilo e nem se tratava de suas especialidades.Tentaram ir embora, mas não encontraram saída nenhuma.

Aos poucos o vozeirio foi se transformando em murmúrios e exclamações abafadas de ressentimentos e admiração, quando a Inspiração, uma ninfeta linda entrou em cena. Foi até ao jovem prostrado e o tomou no colo, acalentou-o, brincando com ele como se fosse um bebê, beliscando-lhe as bochechas, consolando-o. Precisara sair, mas já estava de volta, disse-lhe carinhosamente, e de mãos dadas caminharam pela sala que então converteu-se num imenso jardim e à sua passagem todos se curvavam em cumprimento, meio encabulados devido a confusão que se formara, sorrindo desajeitados.

Era um magnífico jardim, cheio de recantos acolhedores, fontes coloridas lagos, luzes, bancos e poltronas confortáveis tendo ao centro uma mesa gigantesca, cheia de lápis e papéis e para ela se dirigiu Prometeu, enquanto os livros ergueram vôo e foram pousar, em ordem, nas belas prateleiras formadas pelos galhos de vistosas árvores divisórias de onde pendiam cachos e ramalhetes de flores formando cascatas perfumadas de rara beleza, e de lá, arrumando suas páginas como se fossem penas e asas, observavam a trajetória do escritor.

Sentando-se à mesa, encimada por uma abóboda transparente que lhe permitia ver o cair da chuva sem se molhar, era iluminado pela luz das estrelas, suas amigas mais íntimas, tendo a seu lado a Inspiração e à frente a magestosa Lenda, ele escreveu.

Escreveu, enfim; enquanto na grande redoma que protegia o jardim, um veleiro branco singrava o mar calmo, peixinhos dourados brincavam num lago azul e cristalino, rindo como crianças eram seus borbulhos.

Estrelas de prata brilhando no ar.

Guizos de cristal, acalentando sonhos.

Era Natal, quando essas coisas acontecem. 

PENETRA





PENETRA

27 de março de 2011 às 22:53
PENETRA.





Antítese do padrão conceitual ele era lento, dir-se-ia semimorto, tanta era sua passividade.

Encontrei-o pela primeira vez apresentando-se como parte do ambiente, em uma voz triste, tímida, sofrida, como se implorasse ser reconhecida a sua existência, suplicando seus direitos, não os impondo mas deixando puramente a cargo do nível da compreensão alheia o seu respeito.

Magro, como jamais vi outro igual, tinha os olhos de um cego, azuis opacos, denotando o avanço dos anos e o uso já de várias vidas. Salientavam-se das suas fauces dentes como cópia gasta e imperfeita dos de Sabres ancestrais.

Pantera negra, confundindo-se com a escuridão da noite e da vida reclusa e inecessitada.

Penetra! Nome que lhe foi dado em silogismo aos penetras das festas e da vida, os não convidados, os que acreditam ser detentores do direito de viver e estar presente; querem receber porque acham que podem dar, são importantes por si mesmos, dêem- lhe ou não qualquer valor.

Penetra se impôs pacificamente, um eterno dodói, de olhar triste e distante, fatalista; jamais fugia ou demonstrava temor ou desconfiança.

Ficou ali, aguardando, convivendo e tornou-se indispensável, integrante companhia que se assenhorou dos nossos mais queridos afetos, alimentado a ovos cozidos, omeletes, carnes e papas de aveia;  nunca de restos, que no entanto os comia por puro deleite ou memória atávica.

Livre, proporcionava-se o prazer de compartilhar tantas refeições dos momentos abastados e conformava-se com uma simples bolachinha e um pouco de leite dos dias mais precários, sem exigências, com idêntico prazer.

Dominava inteiramente seu território. Tornou-se forte e musculoso, ágil e imponente.

Esperava-nos `a noite, quando voltávamos de um dia de trabalho e estudos; sempre estava em algum inesperado recanto do jardim. Nunca sabíamos exatamente de onde surgiria e aí é que estava toda a especialidade daqueles momentos, a surpresa de revermos um ente querido, `as vezes correndo e surgindo de repente como um raio negro e brilhante dentre as flores, outras vezes achatava-se contra a grama e confundia-se com as sombras para saltar a meio milímetro dos nossos pés em movimento, sem nunca errar, tocar ou ser tocado…então caminhava conosco por uma trilha de cimento até a porta e… não entrava.Andava na frente e não importava a pressa de quem viesse atrás, parava sabe-se lá porque e nunca entrava logo sem cumprir o seu ritual obrigatório, e esperava que déssemos o primeiro passo para entrarmos juntos na casa, de bolo, quase sendo pisado, obrigando-nos a um perfeito controle corporal, a um caminhar leve e controlado, impecável aos olhos de um praticante de t’ai chi chuan.

Lânguido nos dias de sol, estendia-se sobre o gramado, sobre o muro, em galhos finos de árvores pequenas. Corria e saltava por puro prazer, elevando-se `as alturas dos troncos de coqueiro para insinuar-se entre as folhas  por onde descia ágil ou lento conforme determinasse sua vontade.

No inverno recolhia-se a uma cesta de palha, enrodilhava-se e de lá raramente saía para perseguir algumas rãs e voltava logo, sem dispensar seu ritual noturno, exceto quando as chuvas eram abundantes.

Nunca deixou de ser querido, nunca abandonou o ar de eterno dodói, ficando nos portais das janelas enteladas, miando fios de sons sofridos durante o jantar como se nada mais tivesse comido e não tivesse mais forças.

Diziam ter sido o mascote místico de uma velha feiticeira, antiga dona do lugar; não sabemos ao certo, mas que era mágico, não restavam dúvidas, e assim, passaram-se dois anos.

Um dia, forças maiores nos fizeram partir, e nos preparativos manteve-se alheio, estranho, sentindo que voltaria a ser só e abandonado, faminto e infeliz. Movimentou-se ainda um pouco, como – nos pareceu em nossa sensibilidade–, tentando nos convencer a ficar, mas não podíamos. No ultimo momento, no instante mesmo da partida, recolheu-se pleno de dignidade, sem aceitar afetos de despedida, ressentido, entregue `a fatalidade do seu destino. Pudesse expressar sentimentos em nossa fala inútil, com certeza diria em questionamento: – Por que? O que fiz, afinal?

Mas não era nada com você, Penetra. Éramos tão penetras quanto você.

Voltei ao local, tão logo soube que não poderia ficar impassível, e o encontrei no jardim, onde sempre ficava, estendido na grama, olhando a esmo, parecendo ainda mais envelhecido. Quem o alimentaria como antes? Quem mitigaria sua sede, em que colo dormiria antes de se recolher? Porque voltara a um estado primitivo, vivendo em  uma sociedade urbana que não entende a natureza animal e, sobretudo, a natureza livre e independente dos gatos.

Em meio a este turbilhão de perguntas e conclusões pessimistas, tomei-o em minhas mãos e levei-o `a minha casa, grande, entre árvores frondosas e semi-deuses indígenas, mas esqueci do princípio da territorialidade. Lá dominava o meu próprio gato, maior, mais forte, mais bem alimentado e feroz, e para não falar mais , foi uma opção impossível.

Levamos-no de volta ao seu reduto e o entregamos `a sua própria sorte.

Não comera durante o dia, nada bebera, só aceitando `a noite um ínfimo pedaço de carne das mãos de sua protetora e percorremos em silêncio o caminho conhecido e o deixamos alí, não no jardim de tantas lembranças, mas no fundo do pequeno quintal e sob um jambeiro, por ser mais escuro e mais protegido, e ficamos ainda um pouco, aguardando só Deus sabe o que, enquanto o Penetra lambia seus ferimentos e se recompunha e nós nos entregávamos `as nossas fraquezas e dores impossíveis de ser mitigadas.

Partimos, afinal, curvados ao inevitável e nunca mais vimos aquele gato que a nós se tornou tão caro.

Nunca escrevi sobre você, querido Penetra! Nunca lhe desenhei, nunca lhe retratei por quaisquer outros meios e na verdade tentei pensar e falar sobre você porque junto com as saudades que sinto vem a vergonha da minha irresponsabilidade, impotência, fraqueza e ingenuidade mas creio em Deus e Sua infinita bondade, e sei, embora não me impeça as lágrimas, que você teve e terá seu lugar em um jardim imenso, aonde possa correr e brincar como antes e viver longe de máus tratos e da crueldade humanas, como um ser perfeito e merecedor que é.

Dominante dos seus territórios, você lutou bravamente contra gatos grandes e ferozes mas nada fazia quando o mesmo território era invadido alegremente por filhotinhos que você poderia destruir com uma só patada, aceitando-os e até se deixando fugir quando ingenuamente perseguido, ensinando-os até, com esquivas e movimentos de luta. Você não sairá jamais do nosso coração, e em mim sua espécie terá sempre um protetor.

Só hoje, tanto tempo depois, consegui lhe descrever e creio não ter sido inteiramente fiel. Talvez você tenha exalado o ultimo suspiro de sua última vida, não sei. Talvez esteja vivo e bem, mas seja como for, escrevo ao registro acásico e lanço `a noite minha mensagem e pedidos invocando as entidades protetoras, aos meus Lords, a minha força dispersa, tudo a um só tempo e declaro, cumprirei os meus desígnios.

Fique com Deus, querido Penetra e perdoe-me por tê-lo aprisionado por tanto tempo em meus pensamentos.

Somos ambos livres agora e sou grato por mais esse pouco de luz que recebo.



No verão, brincava entre as flores.No verão, brincava entre as flores.
Confundia-se com a grama.Confundia-se com a grama.
Agora somos livres, meu querido Penetra.Agora somos livres, meu querido Penetra.

UM DIA INESQUECÍVEL







Um dia inesquecível.

21 de maio de 2011 às 21:54
Um dia desses, faz tempo eu estava derrubado mesmo! Sem garra para lutar, corpo todo dolorido, sem ânimo para correr, saco cheio de tanto estudar, coluna dura, cãimbra nos pés, flexibilidade zero. Cheguei a um barranco profundo e fiquei olhando o rio lá embaixo e estava quase me preparando para meditar, pedir um pouco da força e da fluidez daquelas águas para mim quando percebi que a vegetação ao meu redor estava péssima; flores murchas, folhas secas, galhos curvos, um gato magro andando a esmo.Resolvi fazer diferente e não pedir por mim, mas buscar o que ainda restava de bom em mim e dar aqueles seres ao meu redor.Entrei em meditação profunda, curvei-me em súplica e minha voz era como o balbúcio de uma criança indefesa.Senti uma folhinha roçando meu rosto muito de leve e abri os olhos. As flores estavam cheias de viço, as folhas verdes outra vez, os galhos erguiam-se novamente como se dançassem ao vento e o gato ainda estava magro, mas cheio de ânimo com o pelo brilhando tanto quanto seus olhos veio para o meu colo e ficou ronronando em paz. Fiquei tão gratificado que esqueci do meu próprio estado de miséria. Continuei meu caminho e só então percebi que corria leve e veloz como se não tivesse peso algum, não havia mais cãimbras nem dores, desânimo ou rigidez.

NOITE AMIGA










16 de abril de 2011 às 22:17
                                                                              Noite Amiga.













Lá de longe no tempo, repete-me uma outra imagem que ora transcrevo pela primeira vez, no elenco dos fatos referentes aos meus gatos.

Eu tinha uma gata preta, delgada e bela, ágil como todos os da sua espécie; lembrava uma miniatura de pantera negra. Surgida não sei mais de onde, refugiara-se em meu quintal e lá vivia, pela minha casa, pelos quartos, sobre os móveis, caminhando elegantemente, plena de nobreza e silêncio em seus domínios como se fôssemos nós os hóspedes.

Um dia ela teve dois filhotes fêmeas, uma delas muito negra, muito bonita e a outra raquítica,com o rabo cotó, aleijada e doente. A gata mãe vivia com as duas plena de orgulho, treinando-as, acarinhando-as, alimentando e protegendo as duas crias com igualdade, sem discriminações ou rejeições. Mas o tempo foi passando e a filhote perfeita passou a ser rejeitada pela mãe, por razões que só ela sabia e jamais pude conhecer, sendo constatemente castigada quase até `a morte, chegando ao ponto de fugir espavorida dada vez que via aproximar-se a gata mãe.

Eu observava sem poder intervir e não raras vezes presenciei momentos de extrema depressão da gata mãe, que definhava a cada dia, permanecendo por horas entregue ao seu sofrimento mudo, até que um dia desapareceu. Simplesmente saiu e não voltou mais, permanecendo distante por muitos dias.

Certa noite ela voltou.

Eu assistia a um filme na TV, sentado ao chão, tendo as filhotes já crescidas adormecidas ao meu lado, dividindo comigo o meu carpete grosseiro, quando a bela sombra negra assomou pelo visor da porta de entrada e mesmo antes de ter todo o seu corpo dentro da casa, miava de forma insistente e contínua e dirigiu-se d’um salto `a filhote rejeitada.

A filhote ficou inerte, sem quaisquer reações, olhos dilatados, coração batendo com força; todo seu corpo traduzia o desejo de fugir, mas não podia fazê-lo e a gata mãe dela se aproximou, tranquilizando-a, ronronando com miados entrecortados como que embargados por forte emoção.

Não raras vezes tenho mencionado a beleza contida no comportamento dos meus gatos, mas eu jamais vira cena tão bela.

A filhotinha permaneceu sentada e mantendo erguida a parte superior do seu tronco curvou a cabeça para a frente, num gesto de humildade e submissão, e se deixou tocar e acariciar pela mãe que a tratou de forma idêntica aos tempos de recém-nascida, lambendo-a por inteiro, cuidando dos seus pequenos ferimentos, retirando-lhe palhinhas e fragmentos de plantas presas ao seu pelo e a gatinha tendo aos poucos dissipada sua tensão, foi relaxando, desaparecendo as dilatações das pupilas dos olhos, que se foram fechando sonolentamente, e o seu corpo foi se deitando de lado ao encontro da mãe até adormecer sobre seu ventre.

A gata mãe enroscou-se ao redor da filhotinha, atraiu para si a outra, que se mantivera `a distância, observando sem se mover… e dormiram todos assim.

Aquele reencontro ficou gravado em minha alma, para jamais se esvanecer.