PENETRA
PENETRA.
Antítese do padrão conceitual ele era lento, dir-se-ia semimorto, tanta era sua passividade.
Encontrei-o pela primeira vez apresentando-se como parte do ambiente, em uma voz triste, tímida, sofrida, como se implorasse ser reconhecida a sua existência, suplicando seus direitos, não os impondo mas deixando puramente a cargo do nível da compreensão alheia o seu respeito.
Magro, como jamais vi outro igual, tinha os olhos de um cego, azuis opacos, denotando o avanço dos anos e o uso já de várias vidas. Salientavam-se das suas fauces dentes como cópia gasta e imperfeita dos de Sabres ancestrais.
Pantera negra, confundindo-se com a escuridão da noite e da vida reclusa e inecessitada.
Penetra! Nome que lhe foi dado em silogismo aos penetras das festas e da vida, os não convidados, os que acreditam ser detentores do direito de viver e estar presente; querem receber porque acham que podem dar, são importantes por si mesmos, dêem- lhe ou não qualquer valor.
Penetra se impôs pacificamente, um eterno dodói, de olhar triste e distante, fatalista; jamais fugia ou demonstrava temor ou desconfiança.
Ficou ali, aguardando, convivendo e tornou-se indispensável, integrante companhia que se assenhorou dos nossos mais queridos afetos, alimentado a ovos cozidos, omeletes, carnes e papas de aveia; nunca de restos, que no entanto os comia por puro deleite ou memória atávica.
Livre, proporcionava-se o prazer de compartilhar tantas refeições dos momentos abastados e conformava-se com uma simples bolachinha e um pouco de leite dos dias mais precários, sem exigências, com idêntico prazer.
Dominava inteiramente seu território. Tornou-se forte e musculoso, ágil e imponente.
Esperava-nos `a noite, quando voltávamos de um dia de trabalho e estudos; sempre estava em algum inesperado recanto do jardim. Nunca sabíamos exatamente de onde surgiria e aí é que estava toda a especialidade daqueles momentos, a surpresa de revermos um ente querido, `as vezes correndo e surgindo de repente como um raio negro e brilhante dentre as flores, outras vezes achatava-se contra a grama e confundia-se com as sombras para saltar a meio milímetro dos nossos pés em movimento, sem nunca errar, tocar ou ser tocado…então caminhava conosco por uma trilha de cimento até a porta e… não entrava.Andava na frente e não importava a pressa de quem viesse atrás, parava sabe-se lá porque e nunca entrava logo sem cumprir o seu ritual obrigatório, e esperava que déssemos o primeiro passo para entrarmos juntos na casa, de bolo, quase sendo pisado, obrigando-nos a um perfeito controle corporal, a um caminhar leve e controlado, impecável aos olhos de um praticante de t’ai chi chuan.
Lânguido nos dias de sol, estendia-se sobre o gramado, sobre o muro, em galhos finos de árvores pequenas. Corria e saltava por puro prazer, elevando-se `as alturas dos troncos de coqueiro para insinuar-se entre as folhas por onde descia ágil ou lento conforme determinasse sua vontade.
No inverno recolhia-se a uma cesta de palha, enrodilhava-se e de lá raramente saía para perseguir algumas rãs e voltava logo, sem dispensar seu ritual noturno, exceto quando as chuvas eram abundantes.
Nunca deixou de ser querido, nunca abandonou o ar de eterno dodói, ficando nos portais das janelas enteladas, miando fios de sons sofridos durante o jantar como se nada mais tivesse comido e não tivesse mais forças.
Diziam ter sido o mascote místico de uma velha feiticeira, antiga dona do lugar; não sabemos ao certo, mas que era mágico, não restavam dúvidas, e assim, passaram-se dois anos.
Um dia, forças maiores nos fizeram partir, e nos preparativos manteve-se alheio, estranho, sentindo que voltaria a ser só e abandonado, faminto e infeliz. Movimentou-se ainda um pouco, como – nos pareceu em nossa sensibilidade–, tentando nos convencer a ficar, mas não podíamos. No ultimo momento, no instante mesmo da partida, recolheu-se pleno de dignidade, sem aceitar afetos de despedida, ressentido, entregue `a fatalidade do seu destino. Pudesse expressar sentimentos em nossa fala inútil, com certeza diria em questionamento: – Por que? O que fiz, afinal?
Mas não era nada com você, Penetra. Éramos tão penetras quanto você.
Voltei ao local, tão logo soube que não poderia ficar impassível, e o encontrei no jardim, onde sempre ficava, estendido na grama, olhando a esmo, parecendo ainda mais envelhecido. Quem o alimentaria como antes? Quem mitigaria sua sede, em que colo dormiria antes de se recolher? Porque voltara a um estado primitivo, vivendo em uma sociedade urbana que não entende a natureza animal e, sobretudo, a natureza livre e independente dos gatos.
Em meio a este turbilhão de perguntas e conclusões pessimistas, tomei-o em minhas mãos e levei-o `a minha casa, grande, entre árvores frondosas e semi-deuses indígenas, mas esqueci do princípio da territorialidade. Lá dominava o meu próprio gato, maior, mais forte, mais bem alimentado e feroz, e para não falar mais , foi uma opção impossível.
Levamos-no de volta ao seu reduto e o entregamos `a sua própria sorte.
Não comera durante o dia, nada bebera, só aceitando `a noite um ínfimo pedaço de carne das mãos de sua protetora e percorremos em silêncio o caminho conhecido e o deixamos alí, não no jardim de tantas lembranças, mas no fundo do pequeno quintal e sob um jambeiro, por ser mais escuro e mais protegido, e ficamos ainda um pouco, aguardando só Deus sabe o que, enquanto o Penetra lambia seus ferimentos e se recompunha e nós nos entregávamos `as nossas fraquezas e dores impossíveis de ser mitigadas.
Partimos, afinal, curvados ao inevitável e nunca mais vimos aquele gato que a nós se tornou tão caro.
Nunca escrevi sobre você, querido Penetra! Nunca lhe desenhei, nunca lhe retratei por quaisquer outros meios e na verdade tentei pensar e falar sobre você porque junto com as saudades que sinto vem a vergonha da minha irresponsabilidade, impotência, fraqueza e ingenuidade mas creio em Deus e Sua infinita bondade, e sei, embora não me impeça as lágrimas, que você teve e terá seu lugar em um jardim imenso, aonde possa correr e brincar como antes e viver longe de máus tratos e da crueldade humanas, como um ser perfeito e merecedor que é.
Dominante dos seus territórios, você lutou bravamente contra gatos grandes e ferozes mas nada fazia quando o mesmo território era invadido alegremente por filhotinhos que você poderia destruir com uma só patada, aceitando-os e até se deixando fugir quando ingenuamente perseguido, ensinando-os até, com esquivas e movimentos de luta. Você não sairá jamais do nosso coração, e em mim sua espécie terá sempre um protetor.
Só hoje, tanto tempo depois, consegui lhe descrever e creio não ter sido inteiramente fiel. Talvez você tenha exalado o ultimo suspiro de sua última vida, não sei. Talvez esteja vivo e bem, mas seja como for, escrevo ao registro acásico e lanço `a noite minha mensagem e pedidos invocando as entidades protetoras, aos meus Lords, a minha força dispersa, tudo a um só tempo e declaro, cumprirei os meus desígnios.
Fique com Deus, querido Penetra e perdoe-me por tê-lo aprisionado por tanto tempo em meus pensamentos.
Somos ambos livres agora e sou grato por mais esse pouco de luz que recebo.

No verão, brincava entre as flores.
Confundia-se com a grama.
Agora somos livres, meu querido Penetra.
Antítese do padrão conceitual ele era lento, dir-se-ia semimorto, tanta era sua passividade.
Encontrei-o pela primeira vez apresentando-se como parte do ambiente, em uma voz triste, tímida, sofrida, como se implorasse ser reconhecida a sua existência, suplicando seus direitos, não os impondo mas deixando puramente a cargo do nível da compreensão alheia o seu respeito.
Magro, como jamais vi outro igual, tinha os olhos de um cego, azuis opacos, denotando o avanço dos anos e o uso já de várias vidas. Salientavam-se das suas fauces dentes como cópia gasta e imperfeita dos de Sabres ancestrais.
Pantera negra, confundindo-se com a escuridão da noite e da vida reclusa e inecessitada.
Penetra! Nome que lhe foi dado em silogismo aos penetras das festas e da vida, os não convidados, os que acreditam ser detentores do direito de viver e estar presente; querem receber porque acham que podem dar, são importantes por si mesmos, dêem- lhe ou não qualquer valor.
Penetra se impôs pacificamente, um eterno dodói, de olhar triste e distante, fatalista; jamais fugia ou demonstrava temor ou desconfiança.
Ficou ali, aguardando, convivendo e tornou-se indispensável, integrante companhia que se assenhorou dos nossos mais queridos afetos, alimentado a ovos cozidos, omeletes, carnes e papas de aveia; nunca de restos, que no entanto os comia por puro deleite ou memória atávica.
Livre, proporcionava-se o prazer de compartilhar tantas refeições dos momentos abastados e conformava-se com uma simples bolachinha e um pouco de leite dos dias mais precários, sem exigências, com idêntico prazer.
Dominava inteiramente seu território. Tornou-se forte e musculoso, ágil e imponente.
Esperava-nos `a noite, quando voltávamos de um dia de trabalho e estudos; sempre estava em algum inesperado recanto do jardim. Nunca sabíamos exatamente de onde surgiria e aí é que estava toda a especialidade daqueles momentos, a surpresa de revermos um ente querido, `as vezes correndo e surgindo de repente como um raio negro e brilhante dentre as flores, outras vezes achatava-se contra a grama e confundia-se com as sombras para saltar a meio milímetro dos nossos pés em movimento, sem nunca errar, tocar ou ser tocado…então caminhava conosco por uma trilha de cimento até a porta e… não entrava.Andava na frente e não importava a pressa de quem viesse atrás, parava sabe-se lá porque e nunca entrava logo sem cumprir o seu ritual obrigatório, e esperava que déssemos o primeiro passo para entrarmos juntos na casa, de bolo, quase sendo pisado, obrigando-nos a um perfeito controle corporal, a um caminhar leve e controlado, impecável aos olhos de um praticante de t’ai chi chuan.
Lânguido nos dias de sol, estendia-se sobre o gramado, sobre o muro, em galhos finos de árvores pequenas. Corria e saltava por puro prazer, elevando-se `as alturas dos troncos de coqueiro para insinuar-se entre as folhas por onde descia ágil ou lento conforme determinasse sua vontade.
No inverno recolhia-se a uma cesta de palha, enrodilhava-se e de lá raramente saía para perseguir algumas rãs e voltava logo, sem dispensar seu ritual noturno, exceto quando as chuvas eram abundantes.
Nunca deixou de ser querido, nunca abandonou o ar de eterno dodói, ficando nos portais das janelas enteladas, miando fios de sons sofridos durante o jantar como se nada mais tivesse comido e não tivesse mais forças.
Diziam ter sido o mascote místico de uma velha feiticeira, antiga dona do lugar; não sabemos ao certo, mas que era mágico, não restavam dúvidas, e assim, passaram-se dois anos.
Um dia, forças maiores nos fizeram partir, e nos preparativos manteve-se alheio, estranho, sentindo que voltaria a ser só e abandonado, faminto e infeliz. Movimentou-se ainda um pouco, como – nos pareceu em nossa sensibilidade–, tentando nos convencer a ficar, mas não podíamos. No ultimo momento, no instante mesmo da partida, recolheu-se pleno de dignidade, sem aceitar afetos de despedida, ressentido, entregue `a fatalidade do seu destino. Pudesse expressar sentimentos em nossa fala inútil, com certeza diria em questionamento: – Por que? O que fiz, afinal?
Mas não era nada com você, Penetra. Éramos tão penetras quanto você.
Voltei ao local, tão logo soube que não poderia ficar impassível, e o encontrei no jardim, onde sempre ficava, estendido na grama, olhando a esmo, parecendo ainda mais envelhecido. Quem o alimentaria como antes? Quem mitigaria sua sede, em que colo dormiria antes de se recolher? Porque voltara a um estado primitivo, vivendo em uma sociedade urbana que não entende a natureza animal e, sobretudo, a natureza livre e independente dos gatos.
Em meio a este turbilhão de perguntas e conclusões pessimistas, tomei-o em minhas mãos e levei-o `a minha casa, grande, entre árvores frondosas e semi-deuses indígenas, mas esqueci do princípio da territorialidade. Lá dominava o meu próprio gato, maior, mais forte, mais bem alimentado e feroz, e para não falar mais , foi uma opção impossível.
Levamos-no de volta ao seu reduto e o entregamos `a sua própria sorte.
Não comera durante o dia, nada bebera, só aceitando `a noite um ínfimo pedaço de carne das mãos de sua protetora e percorremos em silêncio o caminho conhecido e o deixamos alí, não no jardim de tantas lembranças, mas no fundo do pequeno quintal e sob um jambeiro, por ser mais escuro e mais protegido, e ficamos ainda um pouco, aguardando só Deus sabe o que, enquanto o Penetra lambia seus ferimentos e se recompunha e nós nos entregávamos `as nossas fraquezas e dores impossíveis de ser mitigadas.
Partimos, afinal, curvados ao inevitável e nunca mais vimos aquele gato que a nós se tornou tão caro.
Nunca escrevi sobre você, querido Penetra! Nunca lhe desenhei, nunca lhe retratei por quaisquer outros meios e na verdade tentei pensar e falar sobre você porque junto com as saudades que sinto vem a vergonha da minha irresponsabilidade, impotência, fraqueza e ingenuidade mas creio em Deus e Sua infinita bondade, e sei, embora não me impeça as lágrimas, que você teve e terá seu lugar em um jardim imenso, aonde possa correr e brincar como antes e viver longe de máus tratos e da crueldade humanas, como um ser perfeito e merecedor que é.
Dominante dos seus territórios, você lutou bravamente contra gatos grandes e ferozes mas nada fazia quando o mesmo território era invadido alegremente por filhotinhos que você poderia destruir com uma só patada, aceitando-os e até se deixando fugir quando ingenuamente perseguido, ensinando-os até, com esquivas e movimentos de luta. Você não sairá jamais do nosso coração, e em mim sua espécie terá sempre um protetor.
Só hoje, tanto tempo depois, consegui lhe descrever e creio não ter sido inteiramente fiel. Talvez você tenha exalado o ultimo suspiro de sua última vida, não sei. Talvez esteja vivo e bem, mas seja como for, escrevo ao registro acásico e lanço `a noite minha mensagem e pedidos invocando as entidades protetoras, aos meus Lords, a minha força dispersa, tudo a um só tempo e declaro, cumprirei os meus desígnios.
Fique com Deus, querido Penetra e perdoe-me por tê-lo aprisionado por tanto tempo em meus pensamentos.
Somos ambos livres agora e sou grato por mais esse pouco de luz que recebo.

No verão, brincava entre as flores.
Confundia-se com a grama.
Agora somos livres, meu querido Penetra.
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