segunda-feira, 23 de junho de 2014

UM PASSO A MAIS - Considerações sobre as corridas e corredores.






UM PASSO A MAIS - Vislumbre de alguns aspectos da dimensão atlética em que se situam as corridas e os corredores.

27 de novembro de 2010 às 09:32






UM PASSO A MAIS.



UM PASSO A MAIS.

Vislumbre de alguns aspectos da dimensão atlética em que se situam as corridas e os corredores.

Pedro Jorge Clemente de Melo.18 de agosto de 2009.



Não importa se um calo de sangue surgir no seu pé.Ele vai secar e desaparecer.O que não pode secar é a seiva da vida, nem a fonte de onde brotam nossos sonhos.

Dedico esta narrativa a todos aqueles, atletas ou não, com quem compartilho diuturnamente as ruas, as pistas e outros territórios de mais difícil acesso .Aos meus companheiros de treinos no Dojo UNICAP, outros “dojo” e meus amigos do Orkut e Facebook.

UM PASSO A MAIS.


Três fatos principais me levaram a escrever esses ditos e não ditos.

Uma mulher chorando por não ter conseguido fazer o percurso completo de uma corrida como teste de aptidão física a concurso para um cargo público de lixeiro. O Usain Bolt em Berlim, no domingo 16/08/09, perfazendo 100 metros em 9 segundos e 58 décimos e depois dançando em comemoração ao novo record, a medalha de ouro, ao prêmio e, quem sabe, festejando sua proficiência mesma no Mundial de Atletismo. A extrema gentileza que me foi dispensada na manhã de ontem, segunda-feira, quando em pleno horário de pique em uma avenida movimentada, todos os carros esperaram, mesmo com permissão de partida, que eu a atravessasse sem ter que interromper o meu ritmo de corrida.Muito obrigado!

Pois é! Realidades bem diferentes.

É bem verdade que num concurso público, assim como no atletismo, não dá para todo mundo sair vencedor. Uma filtragem é necessária, e dependendo de como o competidor venha a se preparar, haverá outras chances.

Mas, é preciso que se diga: existem fenômenos, reações do corpo e da mente que nem sempre são levados em conta por aqueles que não se dedicam a uma preparação completa, que não estejam imersos no mundo atlético como está o Usain Bolt e mesmo esse, pode ser vitimado por tais fenômenos, ainda que muito avisados.

O simples falar dessas coisas já não é tão fácil.Vivê-las é ainda mais difícil.

Antes da abordagem propriamente dita, explico que não sou um instrutor de educação física, nem um preparador de atletas; esses são os profissionais autorizados a falar objetivamente de corridas e somente os médicos podem avaliar as condições físicas, pulmonares, cardíacas, ortopédicas de alguém que deseje ser um corredor ou submeter-se a testes físicos, sejam dirigidos a um concurso público, sejam destinados aos Jogos Olímpicos, mas se Gaston Bachelard pode escrever a Água e os Sonhos e a Psicanálise do Fogo, sem ser um especialista, eu também posso falar de corridas, pois quando o Mago Merlin se considerou capacitado para ensinar Arthur a voar, porque tinha feito um curso de vôo, ouviu da coruja Arquimedes: E eu sou um pássaro!

Asseverei o sentido pulmonar, cardíaco e ortopédico, por serem esses os aspectos mais imediatamente observados e de que se ressente um atleta ou um trabalhador braçal, qualquer um submetido a esforço, mas a visão, a audição, o olfato, o tato e o paladar são de extrema importância, bem mais do que a importância que lhe é dada, e uma pequena deficiência não detectada nesses sentidos podem causar sérios problemas.

Já que pretendo falar de corridas e corredores, faço questão de lembrar a quem esteja perguntando o que é que o tato tem a ver com isso, que,- ( é muito qqq, não é? ) -, o cérebro precisa reconhecer com precisão o solo em que o pé está pisando. Se esta mensagem que o tato do pé envia ao cérebro não for muito bem explicada, convincente e em tempo hábil, o cérebro não libera o passo seguinte, a não ser que disso dependa a vida do resto do corpo, inclusive dele mesmo, do cérebro.

O mesmo ocorre com os outros sentidos em suas funções específicas

Mas, volto a dizer, isso está na seara dos fisiologistas, neurologistas, oculistas e dentistas, sim, porque um alvéolo inflamado causa um problema danado de grande, sobretudo se a inflamação do dente se projetou do seu foco a um joelho ou um tornozelo, por exemplo, já que estou falando de corredores, ou nas virilhas, o que é ainda pior.

É claro que ninguém que esteja sentindo febre ou outros sintomas de inflamação vai se aventurar ao esforço de alto nível, a não ser que seja obrigado a isso, mas me refiro àquelas mazelas que podem estar no corpo bem escondidinhas, sem que a gente perceba, porque elas se instalaram a pouco tempo ou já estão ali a muito, tanto que nos adaptamos a elas, desde que não saiamos de nosso cotidiano.

Bem, mas se eu continuar desse jeito vou acabar não dizendo nada, embora com isso tenha feito o que se deve fazer em corridas: começar devagar, com calma, porém com firmeza, passo a passo...pode ser apenas um caminhar...

Dito o que não sou, direi o que sou:

Um homem em aprendizado, como está neste blog, alguém que conhece as corridas a partir da prática de remo, pois corre-se muito em remo, além de remar, claro, e porque as corridas são preparações para quase todo tipo de esportes, inclusive para as próprias corridas.

Assim, sendo levado a correr muito no remo, preferi me informar um pouco e conhecer as possibilidades daquela forma de preparação, de modo a melhorar o meu condicionamento físico. Como resultado terminei me tornando um corredor e nisso venho por mais de 30 anos.

Também porque segundo obras conceituadas nessa matéria, as corridas são as mais primitivas formas de locomoção humana; homens da idade da pedra correndo atrás de caça para comer ou correndo dela para não ser comido, e por aí vai, ou foi, mas isso é coisa para historiadores, paleontólogos, e, ( por que não?), corredores como nós.

Com certeza não tenho nenhuma notícia de corredores espontâneos no passado, perfazendo distâncias porque aquilo lhe era agradável, como o fazemos hoje.

Não é incomum que eu considere ridículos os meus registros e este não é exceção, mas não são os registros em si risíveis e sim os fatos a ser registrados, a necessidade de se dizer alguma coisa a respeito do assunto a ser abordado, porque me causa raiva e frustração observar sofrimentos de braços cruzados e boca fechada.

Se dizem que querer verdadeiramente é querer o que não se quer, como nos trás a Psicologia para Principiantes , de Denis Huisman, no capítulo dedicado a vontade, eu digo que poder é fazer o que você quer, mesmo que seja o ato de comprar um simples gibi, um livrinho não recomendado pela comunidade acadêmica, ou um manual de concurso público com que se possa obter um meio de subsistência honesta, como tentou aquela mulher do início desta narrativa.

Mas, por acaso alguém já lhe havia dito, digo, dito a ela, concorrente, as coisas que estou dizendo agora e que talvez ela nem mesmo venha nunca a ler e a saber por meio da leitura? Não sei, mas sei que com certeza saberá a partir de agora, porque alguém lhe dirá ou por meio da comunicação direta do espírito, aquela outra forma de se comunicar como fazia S. Francisco, falando aos ventos.

A razão de tão longo preâmbulo é explicar por que considero tão importante alguém fazer algo que lhe seja aparentemente impossível, mas que é tão comum para outros: Percorrer dez quilômetros ao redor de uma pista de treinos e fazer quinhentos abdominais perfeitos.Sim, perfeitos, porque existem os falsos movimentos e falsas posturas.

Isso se você já estiver vindo de pelo menos três meses de treinamento básico. Aquilo que eu falei lá em cima, lembra-se? Devagar, bem devagar, somente alguns passos, depois uma corrida leve, depois um pouco mais rápido...

É importante que se auto determine a cumprir sua meta, superando quaisquer condições, mesmo que isso signifique iniciar um treinamento ou recuperar uma condição atlética perdida a partir de um meio dia de sol a pino.

Não importa e talvez seja até mais importante, que se use roupas velhas e em frangalhos e tênis surrados, mas sim concentrar-se por algum tempo no ponto de partida, mais que concentrar-se, cuidar para que nada impeça ou interfira naquela decisão e dar o primeiro passo, o segundo o terceiro..mesmo se já estiver sentindo vontade de desistir no meio da primeira volta.

Lembrar-se de que isso ocorre nas maratonas. Apossa-se de corredores como nós uma vontade contrária, um desejo de desistir, mas é preciso prosseguir.

Quarta, quinta, sexta volta, os olhos ardem com o suor impregnado de impurezas orgânicas, medicamentos, gorduras, produtos químicos, cosméticos que nos entram pelos poros, acumulam-se e são postos para fora em momentos tão inadequados.

O nariz excreta sujeira, obrigando o praticante a respirar pela boca e percebe-se que a cabeça está baixa demais e os passos muito curtos.

Limpa-se o nariz e continua-se, para logo perceber que se está outra vez com os olhos ardendo e o nariz obstruído e é necessário que não se dê mais importância a isso, deixando que a sujeira aflore em abundância e do jeito que vier, suportando tanto o asco quanto a ardência.

Entre a sétima e oitava voltas, não se importar se for tomado por tosses e vontade de urinar, que passará a ser outro incômodo transformado em dores intensas no baixo ventre, nos genitais, mas ao contrário de parar, resolver imprimir velocidade, talvez para terminar mais depressa aquele suplício auto infligido até concluir a décima volta, o décimo quilômetro.

As secreções hão de ter cessado, as dores urinárias poderão se tornar insuportáveis mas os dez quilômetros, os famosos dez quilômetros terão sido cumpridos.

Faltam agora os tradicionais movimentos laterais, circulares, costais, todo o corpo deve ser alongado e a respiração controlada aos poucos até voltar a situação normal.

Não custa dar uma olhadinha no Rock Balboa de Silvester Stallone em Rocky, Um Lutador, o primeiro da série quando ele ainda era um Zé Ninguém e no último Rocky Balboa, quando ele voltou a ser um Zé Ninguém e se recuperou de novo.

Desculpe-me Reich, se uso aqui o seu Zé Ninguém, mas que às vezes ele me Escuta.

É bom optar por não usar bálsamos ou outros recursos terapêuticos após os exercícios, para criar resistência e condicionamento.

A meta está cumprida.

No dia seguinte, no mesmo horário se puder, e se não puder que seja pela madrugada, nas primeiras horas da manhã ou à noite, quando tiver tempo, mas desde que no dia imediatamente seguinte, confronte-se e vença a idéia dominante de dias alternados, pois isso é para quem tem o que perder e você quer ganhar, comece e faça tudo outra vez.

Só vai assim! Quando não fazer alguma coisa estiver lhe enchendo as medidas, faça-a, independentemente de conveniências ou considerações ditas lógicas, limitadoras, mesmo porque se forem lógicas não são limitadoras e se forem limitadoras não são lógicas, porque lógico é logos, é trazer da escuridão para a luz.

A hora certa é o agora, quer seja sob sol a pino do meio dia, quer sob chuvas torrenciais, dentro de lama e alagados ou no escuro da noite quando o desgaste é bem menor.

Já são tantas as realizações não consumadas por dependermos de dinheiro, administração pública e tantos outros fatores, que se torna insuportável deixar de fazer aquilo que depende apenas de nós mesmos.

Só que as coisas não são tão fáceis nem tão simples, a não ser que busquemos o auxílio de uma Força Maior.

Se por uma dessas razões insuperáveis, for preciso interromper os seus treinos, retome-os assim que puder e de novo e de novo e ainda uma e mais outra vez.

Já não haverá mais tanta excreção nasal e até sumirá de vez. As dores urinárias nada mais são que reação química causada pela excitação dos músculos abdutores das coxas, próximos às virilhas e aos genitais, talvez, por não estarmos suficientemente relaxados e ter havido uma pressão excessiva na bexiga. Seja como for, não é um problema de saúde.

Mas qual é a razão de tantas considerações a esse respeito? O que podem significar dez míseras voltas, apenas dez quilômetros e quinhentos abdominais? Que são quatro séries de 50 apoios de frente? São uma vitória sobre a impaciência! Correr em círculos requer que tenhamos objetividade, auto determinação, para estar acima do tédio do movimento repetitivo sobre um mesmo percurso, rodeado da mesma paisagem. Objetividade para o que se quer, para poder ser o que se quer ser.

Grandes atletas de renome internacional estão aí, dando o exemplo de suas superações, mas não é o caso de ser ou não ser um atleta profissional, pois o que interessa verdadeiramente é ser o que se quer ser ou o que é mais grave e portanto mais urgente, ser o que se pensa que é.

São tantos os recursos de que todos nós dispomos e não conseguimos usufruir, devido a uma desesperança na vida em razão da realidade prática, da baixeza do cotidiano que envolve as áreas do saber e do fazer.

Somente ficando acima de tais contingências é possível a realização.

Afinal, é preciso ser verdadeiramente aquilo que se é idealmente.

Creio ter discorrido bastante a respeito de alguns males que nos afetam e de reações simples que nos confortam e espero que esses registros possam algum dia servir a alguém em estado de aflição.

Não dê importância se lhe surgir um calo de sangue no pé.

Ele vai secar e desaparecer.

O que não pode secar é a seiva da vida, nem a fonte de onde brotam nossos sonhos.

Comece com calma, bem devagar, timidamente até, apenas caminhando de leve, depois com passos mais largos, depois correndo apenas um metro, dois, três... e um dia, não muito longe...você estará pronto para correr.

Sim, porque você já superou as duas fases acima, não foi? Verificou os olhinhos, o narizinho, coração, tato, paladar...sua pituitária está funcionando direitinho? O doutor disse que você está conseguindo absorver bem o sal dos alimentos? Cá estou de novo a usurpar o território dos endocrinologistas.

Perguntei pelos seus olhos porque correr no escuro é só uma figura de linguagem. Na verdade ainda que em plena escuridão, nossos olhos, ( nos felinos isso bem mais desenvolvido, portanto nunca pense que está protegido de um deles no escuro ), nossos olhos captam a mais ínfima partícula de luz, lançada de muito longe, e mesmo que a gente não a veja, o olho viu, captou e forneceu um mínimo de orientação ao resto do corpo, viu?

Olhinhos, narizinho, coraçãozinho....será que estou falando com uma criança? Não! Nós não precisamos disso quando somos crianças, quero dizer, não precisamos aprender a correr. Corremos porque corremos e pronto, mas nos tornamos adultos, eis o que somos, então que tal um pouco de Al Huang no seu Tai T'chi – Expansão e Recolhimento?

Feche os olhos, deixe que seu corpo, ( Que idéia mais tosca! Quem é o “quem” que deve deixar o corpo isso ou o corpo aquilo? O “meu” corpo, meu de quem? ), deixe-se encontrar o próprio caminho, seu próprio centro no universo, que o corpo dê algumas voltas bambas, trôpegas até e que encontre a postura que lhe é mais favorável, porque esta será a mais confortável e a mais eficiente.Como fazíamos quando éramos crianças.Sinta como se uma mão, muito delicadamente lhe estivesse puxando os cabelos para cima, bem de leve e você se perceberá em postura ereta, sem forçar nada, como uma plantinha que brota do chão e procura o sol.

Permaneça nesse estágio por mais três meses, pelo menos, sem se preocupar com aumentar a distância percorrida nem diminuir o tempo de execução, em aumentar a velocidade, sabe, isso vai surgir espontaneamente.

Bem, agora sim, estamos prontos para correr.

Correr por quilômetros incontáveis indiferente ao sol forte ou à chuva torrencial, frios temporais, luz ofuscante ou na mais completa escuridão; por alamedas de clima ameno ou dividindo auto-pistas de tráfego com carros e gases de combustão.Vencer elevações e descidas íngremes, enterrando os pés em barro e lama, saltando obstáculos naturais, através de nuvens de mosquitos ou inalando mau cheiro; entre cães e gado ou em suaves cantões de flores perfumadas.Sob o impacto de ondas frias e salgadas do mar bravio contra rochas afiadas e lodo deslizante abrindo-se para o infinito azul povoado de tubarões, enguias e arraias próximas, ou vencendo o tédio de um campo de treinamento: dando voltas e mais voltas em movimentos repetitivos e enervantes dos exercícios clássicos, ora em resistência, ora em alta velocidade, com passos curtos ou extremamente largos, arrastados ou em forma de saltos à grande altura e distância; com cautela ou com arroubo, de frente, de costas, de lado, em círculos ao redor de si mesmo, em sentidos e direções alternadas e combinadas, enfim, ilimitadamente.

Está com vontade de chorar? Bateu uma saudade estranha ou uma vontade de parar, se abrigar e dormir envolvido por cobertores bem aconchegantes?Está sentindo uma fome inexplicável? Ou começou a discutir consigo mesmo, como se estivesse numa briga da escola com sua colega de classe ou outra coisa do tipo? Começou a rir do nada e com ninguém em especial?

Correr longas distâncias altera a química do corpo e com as alterações surgem emoções desencontradas. Às vezes perde-se a noção do aqui e agora e nos colocamos fora da percepção de espaço e tempo e em contato com o que e com quem se foi, assim como com o porvir.

A química alterada produz alucinações e com ela, lágrimas, riso ou as duas coisas, tristeza, saudade, alegria, coragem e medo implacáveis. Sonhos, aspirações ganham vida. Estamos em um outro mundo, que naquele momento não é outro, mas sim, para nós, o único e atual. Dizemos ter dito coisas que não dissemos. Retomamos discussões, confrontações e podemos reescrever a nossa história. Aquilo que estava guardado e muito quieto, há muito esquecido resolve aflorar para incomodar ou ser redirecionado, aniquilado ou transcendido.

Correr longas distâncias não é só uma questão de fôlego, músculos, ossos e tendões e nem de “força de vontade”. Não se trata apenas de alimentação e repouso adequados. A dimensão olímpica está muito além, embora no jogo de forças e interações que a situam o corpo seja fundamental assim como suas necessidades. Isto para falarmos apenas daquilo que é dizível, do que pode ser expresso com palavras.

O filme Carruagens de Fogo, produzido em 1981 por David Puttmam e dirigido por Hugh Hudson, foi capaz de detectar e expressar o que se passa com uma corrida, atletas e com o universo olímpico, por meio de uma história real, dramatizada, de dois estudantes de Cambridge: Harold Abrahams, um judeu inglês e Erick Liddel, um protestante escocês, ambos grandes corredores que, juntos a outros disputaram as Olimpíadas de Paris em 1924. Como a trilha sonora de Vangellis soube interpretar os sons que escutamos sem títulos durante uma corrida não sei dizer, mas de todas as obras que conheço, Carruagens de Fogo é a que mais se aproxima do “Ser Olímpico” e do “Não Ser” de que temos nos ocupado neste trabalho.

Há momentos em que pensamos que vamos cair; há momentos em que dormimos em pleno movimento e outros em que são tantas as perturbações e pensamentos, desejos e mesmo necessidades reais que não é possível mantermos a concentração em um objetivo. É preciso parar, pensamos, e logo nos defrontamos com uma luta interior “por não parar”, por continuarmos até atingirmos a meta.

Então estamos prontos...para começar!

A etapa anterior nos parecerá grosseira diante da aparente perfeição atual e assim por diante, sucessivamente, vamos sendo moldados à nossa verdadeira natureza. Até quando? Não sabemos!

Isso me faz lembrar Platão e o Mundo das Ideias.

Assim como nas corridas, ocorre com o condicionamento abdominal, braçal, toráxico, porém em menor grau de intensidade, e se assim considerarmos, tudo pode não passar de uma simples preparação, um condicionamento para a prática da arte desejada: o remo, a natação, as lutas, os jogos coletivos; a prática de viver a vida.

Os confrontos, a ameaça real a vida e a integridade física e mental existem em todos os lugares , em todos os momentos e sobrevive aquele cuja auto confiança, se a tiver, não seja um blefe, mas uma expressão real fundada numa sólida situação de poder que não pode ser só física, intelectual ou financeira, mas o conflito imediato se resolve com o mais imediato da presença e este imediato é a presença física. Os outros recursos são recursos do depois: o recurso intelectual e o recurso financeiro.

Um profissional das forças de segurança, seja ele um policial, um militar institucional ou um agente da segurança privada, assim como seu oposto ético, um assaltante ou um terrorista e mesmo o terceiro grupo, uma multidão em revolta, não precisam ser ricos ou intelectualizados para poderem agir. O seu físico e sua arma são soluções imediatas para a questão da liberdade de locomoção e dos acessos físicos aos bens que os primeiros devem proteger, os segundos querem subtrair e o terceiro conquistar e manter. Os primeiros mantêm a ordem, justa ou injusta, os segundos quebram a ordem, em busca de sua própria realização, o terceiro restaura a ordem justa. Ambos lidam com dominação, com o poder do dinheiro, da política e do sistema instituído, mas tal dominação só pode ser exercida por intermédio de forças da sua própria natureza violenta e imediata, maior do que a força detida individualmente, mas sempre da mesma natureza.

A vida é assim, como nos diz Nietzsche em Além do Bem e do Mal, como a: “origem de toda civilização mais elevada, uma apropriação, em que homens de uma natureza ainda primitiva, bárbaros no mais terrível sentido da palavra, homens de rapina, ainda de posse de indômita força de vontade e do desejo de dominar se precipitaram sobre raças mais fracas, mais pacíficas, e não fizeram menos que escravizar.”( op. Cit. )

Lamento o fato de que seja assim, mas existem outras formas de se viver e outros recursos perante os quais as forças físicas, a educação convencional ou o dinheiro não são mais do que pálidos esboços.

O treinamento físico intenso é uma das portas para tais mundos superiores e tais recursos maiores com que podemos viver aqui na Terra sem termos que nos assemelhar às feras e nem às amebas que se disfarçam de homens e mulheres e nem sermos suas vítimas ou algozes.

A espiritualização, comedida pelo estudo das obras selecionadas da sapiência humana nos provê dos outros bens e recursos de que necessitamos e o conhecimento técnico de práticas elementares ao domínio da instrumentalidade circundante completa tudo de que necessitamos para angariar fortunas ou viver muito bem com pouco.

Eu disse prontos? Sim! Prontos para cruzar a porta de chegada que nos leva ao universo atlético. É preciso que a mente, a alma e os pés tenham sido limpos do lado de fora, nas periferias desse ambiente seleto.

Agora somos atletas em potencial, prontos para iniciar um trabalho de redução de tempo dirigido objetivamente a quebrar um record. Então podemos nos dedicar a escolha da sub-modalidade preferida: as corridas de curta e média distância, as com obstáculos, a maratona. Este é o momento em que podemos absorver os detalhes técnicos, entender as formas de outros corredores, respondermos aos ensinamentos dos técnicos.

Prontos para participar e vencer uma corrida de cem metros rasos em menos de 10 segundos ou ser aprovado num teste físico para ser uma lixeira, ou, pelo menos, não ser impedida ou impedido de perfazer um percurso por conta de emoções e sentimentos fantasmas ou mesmo condições físicas de insanidades reais não detectadas.

Aquele calo já secou e caiu a muito tempo.

Aquelas dores e excreções já não existem mais.

Acima de tudo está o incomensurável, o inefável.

Estamos prontos para sermos campeões ou simplesmente usufruirmos de tudo quanto dispomos, porque já não somos um ser em potência e sim um ser em ato.

E enquanto não se alcança esse inefável, podemos nos contentar em termos saído do estágio do rastejante servil, da odiosa situação de uma Macabéia e seu namorado Olímpico que de olímpico não tem nada e é um ser tão miserável quanto ela mesma, embora pior, por ser mau, a respeito de quem nos conta Clarisse Lispector, n’A Hora da Estrela, que me foi indicado por uma amiga da Comunidade do Orkut: O que Você Está Lendo? - Não sei se posso declinar o seu nome, posso?

Agora podemos dar um passo a mais.

E vencendo a cada dia mais um pouquinho chegamos ao estágio em que corremos mal sentindo os pés tocando o chão, como se voássemos cada vez mais alto, plainando acima das nuvens, em pleno céu perfeito e infinito.


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 Referências:

I – Livros:

- HUISMAN, Denis. A Psicologia para Principiantes. Publicações Dom Quixote: Lisboa, 1983.

- NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Além do Bem e do Mal – tradução por Márcio Pugliesi, da USP (Universidade de São Paulo). Hemus Livraria Editora Ltda.: São Paulo, 1981.

- HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Referências usadas no texto: Primeira parte, primeira seção, terceiro capítulo, alínea A: O ser dos entes que vêm ao encontro do mundo circundante. Segunda parte, segunda seção, quarto capítulo, alínea B: O sentido temporal em que a ocupação guiada pela circunvisão se modifica em descoberta teórica do que é simplesmente dentro do mundo.

- PLATÃO. Tetralogias Platônicas – O Mundo das Ideias.

- LISPECTOR, Clarice. A Hora da Estrela. Editora Rocco, 1977.

-HUANG, Al Chung-liang – Expansão e Recolhimento.A Essência do T’ai Chi Coleção “Novas Buscas em Psicoterapia”, vol. 10. Summus Editorial: São Paulo, 1973.


II – Filmes:

1 – Rocky, um Lutador (1976). Escrito, dirigido e estrelado por Silvester Stallone.

2 - Carruagens de Fogo (1981). Produzido por David Puttmam e dirigido por Hugh Hudson

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