segunda-feira, 23 de junho de 2014

CRIANÇAS - DESAFIOS DA FILOSOFIA NO SEC. XXI - UFPE 2013 - CONGRESSO INTERNACIONAL DE FILOSOFIA







Desafios da filosofia no século 21

Crianças

Pedro Jorge Clemente de Melo

UFPE

2013

INTRODUÇÃO

Ao abordar os Desafios da Filosofia no Século XXI, em congresso com o 

mesmo título realizado em 2006 na Universidade Federal de Minas Gerais, o 

Prof. Ivan Domingues, em sua obra publicada na Revista de Filosofia Kriterion, 

nos diz, após definir o que entende ser o lugar e a natureza da Filosofia, para 

os fins daquele evento:

 “(...) Definido o lugar e a natureza da filosofia (o lugar do virtual e a natureza 

da reflexão = pensamento reflexivo = crítica = sabedoria), e uma vez 

consumadas as tarefas negativas de resistência, de combate e de recusa 

do pensamento filosófico (resistência ao hiper-ativismo teórico do idealismo 

alemão, recusa do pan-linguisticismo da filosofia analítica, combate ao 

pensamento da desconstrução, vistas estas ações como propedêutica 

ou trabalho preparatório e associadas à função crítica do pensamento), 

poderemos dar um passo a mais e nos ocupar do ponto que nos interessa mais 

de perto. Ou seja: delimitar os grandes desafios da filosofia no séc. 21, objetivo 

maior da conferência, dos quais me limitarei a apontar algumas diretrizes, três 

vetores e um conjunto de considerações, em linguagem propositiva (pois são 

propostas), mas sem a pretensão de esgotar o assunto.

As diretrizes são três: 1 - Quebrar o insulamento a que a filosofia se viu 

condenada no séc. 20, com todos os males que o isolamento trouxe, como 

uma visão démodé da ciência, ao parar em Kant e imaginar que a física é a 

filosofia natural de Newton e a geometria, a de Euclides; 2 - Vencer o nihilismo, 

vale dizer, os nihilismos: nihilismo moral, nihilismo político, nihilismo metafísico 

ou ontológico; 3 - Instalar uma sabedoria laica. Vale dizer, uma sabedoria 

definida não como saber absoluto, como em Hegel, ao hipertrofiar mais ainda a 

pletora epistemológica da filosofia moderna, mas como saber das 

potencialidades e dos limites, capaz de dar coerência às fantasias criativas do 

poeta e às chamadas prudenciais do moralista. E o que é importante: num 

esforço – depois que La Rochefoucauld mostrou que a prudência é medíocre e 

nada de grandioso neste mundo foi feito com prudência, mas com ousadia – 

menos de sacralizar o limite e de fixá-lo de uma vez por todas do que de 

buscar o equilíbrio entre esta e aquela. E ainda: uma sabedoria definida como 

uma visão holística de mundo e uma terapia da alma, capaz de curá-la dos 

tormentos das paixões e das turbulências das ações: vertigens, impotências, 

delírios, desastres. Tendo abandonado essa dimensão da antiga filosofia para 

a psicologia e a psicanálise, a filosofia perdeu o enraizamento vital ou, antes, 

existencial, que tinha em Sócrates, em Rousseau e em Nietzsche, ficando mais 

pobre, mais técnica e mais livresca. E mais: perdeu, não uma parte, mas todo 

o enraizamento, quando poderia ter conservado algo da antiga terapia do 

logos, quer dizer, por meio do pensamento ao se aplicar à alma-pyché, sem 

medo da concorrência dos "psi" e sem a necessidade de abrir clínica: trata-se 

tão-somente, como fizera Sócrates, de examinar a vida tal como levada por 

indivíduos normais, sem preocupação com psicopatologias, em busca do bem-
estar ou da saúde da alma. Ou será que o filósofo não tem o que dizer da 

busca da felicidade e dos dilemas dos indivíduos entre mudar o mundo e 

mudar a vida, que a par dos componentes psicológicos têm aspectos morais, e 

como tais fora da alçada dos psicólogos e da competência da psiquiatria? 

Trata-se, num mundo entregue ao utililitarismo e anestesiado pelo materialismo 

hedonista, de resistir aos apelos avassaladores da sociedade de consumo e de 

instalar uma cultura mais espiritualizada e mais predisposta a cultivar os bens 

espirituais, como o saber, o recolhimento interior e a generosidade. Desconfio 

que nestas matérias o verdadeiro concorrente do filósofo não é o psiquiatra ou 

o psicólogo, mas o padre ou o pastor” (DOMINGUES, 2006).

Destaco, para fins de metodologia deste trabalho, a terceira diretriz do 

autor, supra indicada, ora parcialmente reproduzida: 

“3a Diretriz - Instalar uma sabedoria laica, como saber das potencialidades 

e dos limites, capaz de dar coerência às fantasias criativas do poeta e às 

chamadas prudenciais do moralista. Uma sabedoria definida como uma visão 

holística de mundo e uma terapia da alma, capaz de curá-la dos tormentos 

das paixões e das turbulências das ações: vertigens, impotências, delírios, 

desastres” (DOMINGUES, 2006).

E como este Congresso, que reproduz a temática igualmente trabalhada 

pelo Prof. Ivan Domingues, também homenageia o Prof. Paulo Meneses, em 

seu modus operandi, retomo a desconfiança do Prof. Ivo quando diz que o 

verdadeiro concorrente do filósofo não é o psiquiatra ou o psicólogo, mas o 

padre ou o pastor, para lembrar as palavras do homenageado, Padre Paulo 

Gaspar de Meneses em um dos seus artigos, intitulado 50 Anos de alegrias, 

em suas Homilias Dominicais, publicado pela FASA em 2010:

“Quando, em 1990, completei 50 anos de Jesuíta, respondi a uma insistente 

pergunta: que fazia eu para, nessa idade, estar ainda em boa forma, como se 

tanto tempo não tivesse passado. Agora, quando faço 50 de sacerdócio e 80 

de vida, a estranheza continua e minha resposta é a mesma que dei então: 

é porque tenho sido muito feliz na vida religiosa e no sacerdócio, e quando 

se está feliz, o tempo desliza mas não desgasta, como sucede na angústia e 

no ‘stress’” (MENESES, 2010, pg. 156).

consigo estendendo-se ao outro e a nós outros, em seu caminhar e navegar e 

mesmo voar, de sacerdote, filósofo, antropólogo, humanista, ora convivendo 

com o ambiente da selva amazônica, seus primitivos habitantes e animais, 

revelando-nos uma realidade indígena mais pura e mais rica, muito além da 

que nos trazem as transmissões vulgares de pseudo conhecimentos, ora 

interagindo com as ciências exatas e a teologia, a história, a literatura, a 

poesia, ciências políticas e o direito público, quer no mundo da prática, quer no 

mundo do pensamento puro, seja celebrando missas e batismos, seja 

ministrando em salas de aula ou enfrentando os coturnos e baionetas do 

regime militar no Brasil, em defesa da Doutrina Social da Igreja por meio das 

então novas encíclicas de João 23, “Mater et Magistra” e “Pacem in Terris”, 

quer debruçando-se à imensa tarefa da tradução de tantas obras, a exemplo 

da Fenomenologia do Espírito, de Hegel, em que faz uma verdadeira 

psicanálise da linguagem, dando-nos acesso ao sentido da suprassunção 

hegeliana; preservar, prescindir e transcender, conceito por meio do qual lhes 

falo hoje, não sobre, mas a respeito da Criança, o ser que fomos, somos e 

transcendemos, simultaneamente, numa tentativa de, expondo a coerência das 

fantasias poéticas e das chamadas moralistas, com a ousadia de que nos fala 

Rochefoucould, afastar o trágico, o desastroso, o “stress”, para dar lugar a 

Assim foi o Padre Paulo, um concorrente em si mesmo e de si para 

extrusão da mesma felicidade de que nos fala o Pe Paulo, que faz o tempo fluir 

mas não desgastar (MENESES, 2010, pg. 157).

Convido-os, portanto a dividirmos a tarefa de cuidar do Mika, de Jostein 

Gaarder em sua obra Ei, tem Alguém ai? E consolar Mani, a menina índia 

dos mitos e lendas brasileiras que deu a vida para alimentar o seu povo; 

crianças como tantas outras, para a elas voltarmos nossos afetos e desvelos, 

acreditando ser este um dos desafios da Filosofia no Séc.21.

CRIANÇAS

Que queres, Mika? Por que ficas a me fitar com esse olhar suplicante e andas 

atrás de mim sobre meus rastros como se fosses minha sombra?

Por que me estorvas, garoto?

Estás com fome ou com frio? Não! 

Tens o que comer e o que vestir.

Não vês que estou ocupado? Minha espada pode te ferir e larga esses papéis 

que são importantes demais para uma criança.

Que dizes? Uma menina? Sim, só agora a vistes? E que faço eu, também com 

uma indiazinha solitária que não sabe aonde estão seus irmãos?

Como é que é? O cachorro bravo está dormindo e não quer mais acordar? O 

pássaro que sujava seus cabelos desceu ao chão e não quer mais voar?

Mas Mika, você tinha tanto medo daquele cão! E você Mani, seus lindos 

cabelos negros não serão mais pontilhados de branco.

Ah, não! Por favor, não chorem! Vamos, que tal umas frutas, queijos, até 

doces? Peguem, peguem tudo que quiserem!

Ah, entendi! Querem uma estorinha. Tudo bem! O que querem ouvir?

Quem são, de onde vieram, para onde vão?!

Está bem! O sol logo vai dormir, peguem uma cestinha, encham de comida e 

não esqueçam d’água e vamos, vamos ver o por do sol lá de cima dos montes, 

sob aquela árvore grande próxima ao lago, ali onde vêm aquelas luzinhas que 

falam com a gente. Vão na frente, eu chego já.

Preciso antes devolver à terra o que é da terra e o que foi do ar mas não quero 

que vejam, ainda, como foram regadas as flores que vão surgir um dia do chão 

que cultivo agora.

O cão e o pássaro precisam de um abrigo onde possam se transformar em 

paz, como todos nós um dia.

Vão, crianças! Vão que eu chego já.

Bem, aqui estamos nós...meus olhos? Ora é suor! O que queriam mesmo 

saber? Ah, sim! Quem são vocês, quem somos nós.

Mas quem são todos esses outros? Vieram com os raios de sol...tudo bem...vai 

ser um longo poente.

Olhem! Lá estão o cão e o pássaro correndo e voando para além daquelas 

nuvens douradas...ei, crianças, aonde vão?

Lá vão elas brincar. Já nem lembram que há pouco choravam.

Só ficamos nós, meus caros e já que estamos aqui, vamos às Crianças, 

enquanto aproveito para prestar contas a vós outros das tarefas que me 

confiaram.

O Dia da Criança deve ser como o Natal; roupas novas, brinquedos, presentes, 

mas também e principalmente um momento de reflexão.

A quem se destina esse dia? Quem é o ser do dia a quem denominamos 

crianças?

O que é isso que somos ou fomos e que costumamos dizer “elas”, as crianças, 

no sentido sempre dos outros e não de nós mesmos?

Como podemos ter sido outro?

Como podemos pensar a criança a partir da mesma, da criança e não a partir 

de nós adultos?

É bem verdade que o conceito de criança vem variando com o tempo e com os 

costumes de diversos povos e muito se tem feito para nos manter em completa 

desinformação; ora atribuindo-se qualidades e deveres ao essente nesse 

estágio universal da humanidade e de outras espécies, ora retirando-lhe o que 

há de mais puro, quer por meio de legislações permissivas, quer por meio de 

um desserviço das artes em que vemos personagens do tipo Demian, de A 

Profecia em contraste com o Pinochio e o Menino Jesus de O Guardador de 

Rebanhos.

A crueldade, a insensibilidade, o amadurecimento concupiscente e cético e a 

infância crédula, sujeita aos riscos e às explorações da vida adulta.

Qual tem sido a trajetória evolutiva da criança no mundo ocidental, pelo 

menos?

Vejamos por ordem de antiguidade o que nos trás a literatura e as artes, nestes 

quadros ligeiramente pincelados, a começar pelo Fausto, de Goethe:

Segunda parte da tragédia. Segundo Ato. Laboratório.

O homúnculo, dirigindo-se a Wagner:

“- Paizinho, como vai? Não era brinco!

Vamos, com muito tento ao seio estreita-me!

Pode o vidro quebrar se muito apertas!

Essa condição é dos entes todos.

Abrange o natural todo o Universo;

O que a arte formou quer pouco espaço.”

Sim, ela quer pouco, a criança! Quer ser mais que um homúnculo criado em 

laboratório, mas não se queixa do vidro que nos separa. Apenas pede cuidado 

para não quebrar.

Está diante de nós e não se importa com a natureza do seu feitio, se por um 

ato de amor ou teste egoísta e inconseqüente numa noite qualquer.

Ela quer pouco e o muito que precisa não se compara ao pouco que não tem, 

como vemos no Terceiro Ato da mesma obra de Goethe:

Pátio interior do Castelo. Da união de Helena com Fausto.

“ E maternal, da sombra na frescura,

Para anho e criança leite escorre;

Fruta longe não é, dom da planura,

E do cavado tronco mel escorre.

Hereditário aqui é o bem estar,

O rosto e lábios rúbidos, ridentes,

Assim, sob um céu puro, o tenro infante

Vai imitando a robustez paterna.

Que perguntas atônito e hesitante:

São mortais, é de Deus raça eterna?”

Helena, Fausto, Euforion:

Euforion. 

Ouvindo canções de infante,

Com elas vos recreais;

Vendo meu saltar possante,

Salta o coração aos pais.

Coro:

Que longa, doce ventura

A infantil aparição

A este par assegura!

Comove tal união.

Euforion: 

Deixai-me saltar,

Deixai-me correr!

Desejo de ao ar

Imenso ascender,

me está a devorar.

Coro:

Rompe-se, temo,

Cedo a união!”

Eis a plenitude infante, já prestes a se esvanecer.

Não basta o pão, não basta o leite, não basta o mel. Esses são deveres de 

adultos. Em sua dimensão própria a criança quer ser aquele que a provê, 

porque sabe que ele pode ser. Porque vê o que não podemos mais enxergar.

A criança nos devolve a infância outra vez, uma segunda, uma terceira chance 

até, antes que nossas limitações nos digam que nossos olhos já não vêem 

mais, que nosso corpo já não se move como antes.

E assim, enquanto esse pequeno Deus nos fala de nossa infinitude e nos leva 

pela mão à liberdade do ser, do alto da nossa suposta autoridade e sapiência, 

retribuímos com uma morte lenta, com o horror das nossas próprias dores 

e temores: como vemos em Casa Grande e Senzala , de Gilberto Freire – 

Capítulo II . O Indígena na formação da família brasileira:

Profilaxias contra influências malignas.

O corpo do menino, recém-nascido, índio era pintado com urucum ou 

genipapo. Os beiços, o septo, as orelhas perfuradas; batoques, fusos, penas 

enfiadas nesses orifícios; dentes de animais pendurados ao pescoço. Tudo 

para desfigurar, mutilar a criança, com o fim de torná-la repulsiva aos espíritos 

maus; guardá-la do mau olhado e das más influências.

Algumas dessas preocupações profiláticas, disfarçadas às vezes, ou 

confundidas com motivos decorativos e devotos, permanecem em torno à 

criança brasileira.

A idealização do que foram objeto os meninos filhos dos índios nos primeiros 

tempos da catequese e da colonização – época precisamente , de elevada 

mortalidade infantil, como se depreende das próprias crônicas jesuítas, tomou 

muitas vezes caráter meio mórbido; resultado talvez da identificação da criança 

com o anjo católico. A morte da criança passou a ser recebida quase com 

alegria; pelo menos sem horror...

Nos tempos da catequese os jesuítas, talvez para atenuar entre os índios o 

mau efeito do aumento da mortalidade infantil que se seguiu ao contato ou 

intercurso em condições disgênicas, entre as duas raças, tudo fizeram para 

enfeitar ou embelezar a morte da criança...

Tal morbidez é verificada com a seguinte história: 

“ Um menino, filho de um Irmão do Rosário, teve inveja quando viu o enterro de 

um seu companheiro; o corpo dele, conforme o costume estava todo enfeitado 

de flores...

Por isso às vezes ele pedia a seu pai para morrer, dizendo-lhe:

- Deixa-me morrer, ó meu pai.

O pai tendo ouvido muitas vezes a fala do filho, certo dia concedeu-lhe 

permissão para morrer.

O menino, recebida a permissão do pai, deitou-se na cama e sem doença 

alguma morreu.

( Padre Antônio Ruiz, Montoya. Manuscrito Guarany da Biblioteca Nacional do 

Rio de Janeiro sobre a primitiva catechese dos índios das missões, em Anais 

da Biblioteca Nacional. Volume VI.

- Fim de transcrição –

A dependência desses pequenos seres que fomos é absoluta. Não são 

proprietários de nada, não têm força física, não podem fazer valer por si 

seus direitos sequer à vida. Não são capazes de subsistir sem nós, sejamos 

humanos, macacos ou lobos.

Basta uma palavra nossa, dita no tom certo e a criança pode viver ou morrer. 

Viver pensando que está recebendo o melhor de nós ou morrer pensando que 

está fazendo o melhor por nós.

A narrativa ora analisada nos fala de um menino que teve inveja do seu 

companheiro morto, olvidando uma outra versão, uma outra linguagem: - “ Se 

o pai do meu amigo tem um filho morto, com um enterro tão bonito, o meu pai 

também deve ter um igual”. É o que pode ter pensado o menino. Não se trata 

dele próprio ter um enterro bonito, mas sim de proporcionar aos seus pais um 

enterro bonito de si mesmo.

Bastaria uma atitude diferente, uma emanação de pensamento vital dos pais ao 

filho, e outro teria sido o desfecho da história.

A criança. Esse ser que faz desmoronar tudo o que parece sólido e eterno, nos 

vem sendo apresentada como exemplo solucionador de tudo quanto denota 

impecabilidade, perfeição, eficácia, quando se quer assim.

Temos, em A Viagem de Theo:

“ A prece não consiste na concentração do espírito nas palavras; basta repetir 

como uma criança, gaguejando, balbuciando e a fonte jorra do coração.”

Op. Cit. A Viagem de Theo – Ed. 1998 - P.411 – A religião na Rússia - Autora; 

Catherine Clement. Editora Companhia das Letras. Tradução de Eduardo 

Brandão.

Em O Mundo de Sophia, ps. 296 – Jostein Gaarder.

“ A criança não possui opiniões pré-concebidas. Isto, é a maior virtude da 

Filosofia. A criança experimenta o mundo tal como ele é, sem acrescentar 

coisas ao que experimenta.”

O mundo de sofia. Romance da história da filosofia. 

Autor – Jostein Gaarder.

Editora – Cia. Das Letras.

Ano – 1999

Os.296

No mesmo viés de benefícios proporcionados pelas crianças, temos daqueles 

outros que nos alertam quanto aos benefícios do paradigma ecológico, da 

ventura naturalista:

Vá aos campos, integre-se ao meio ambiente, à natureza...mas se nada disso 

for suficiente observe as crianças.

E a uma leitura do que nos diz Hegel nessas mal traçadas linhas, assevero ser 

preciso que estejamos alertas para a espontânea e verdadeira carência infantil.

“ As crianças são em si livres e a vida é apenas o ser aí imediato dessa liberda 

de, por isso elas não pertencem a outros nem aos pais enquanto Coisa.” 

(transcrição do caput).

Op, Cit. Filosofia do Direito.

G.W.F.Hegel, §175.

Tradução de Paulo Meneses, Agemir Bavaresco, Alfredo Moraes, Danilo Vaz 

Curado R. M. Costa, Greice Ane Barbieri e Paulo Roberto Konzen.

Mas o que sabemos nós, os filósofos, literatos, religiosos?

Aos sete anos a voz d’um homem ainda é aflautada e pouca sua resistência 

física, quase nada; músculos que ainda nem insinuam situação de poder e 

olhos em que expressam um estado d’alma em que não há sequer indícios de 

capacidade de defesa.

Aos sete anos somos o Pequeno Príncipe, de Enxupery, sem compreender 

a justiça de um rei e muito menos o labor de um acendedor de lampiões, o 

porque dos números ser tão importantes e qual a razão de ser uma flor menos 

digna que uma montanha.

Aos sete anos compreendemos a importância de revolver os vulcões, a 

coqueteria da rosa e o perigo dos baobás.

Encontramos fontes de água fresca em pleno deserto mas ainda corremos o 

risco de termos a compreensiva companhia de uma serpente, que nos libertará 

do peso excessivo sobre nós colocado por nós outros, adultos, emaranhados 

nos defeitos das máquinas que criamos pensando que podíamos voar.

Encontramos um grande caranguejo predador na praia, carregando um outro, 

menor, nas patas em forma de colo, e pensamos se tratar de um filhotinho 

levado a passear...sem atentarmos para as tenazes assassinas que perfuram o 

casco ainda molinho daquele que queríamos ver amado. Nosso riso nascente 

de afeição se transmuta em soluço contido, mas quanta magia contém uns 

biscoitinhos coloridos!

Não percebemos que na coleta de um simples mexilhão na praia está contido 

um gesto ancestral de obter alimento, o mesmo alimento que recusamos 

receber, que não queremos ver fervido e que nos leva a mover nossos pais em 

altas horas da noite, de volta ao mar, para devolver o bichinho à sua casa, à 

sua mãe que sabemos triste e preocupada com sua ausência.

Pensamos que nossos pais podem fazer parar as chuvas e voltar as águas em 

sentido contrário a correnteza dos rios.

Que podemos fazer com que o vento traga de volta o nosso chapéu por ele 

levado ao meio do lago profundo em uma tarde de pescaria.

E nos rebelamos com a morte do nosso cão, para nós apenas dormindo, 

acreditando que ele vai se levantar e correr conosco outra vez em memoráveis 

bagunças acordadas e não só nos sonhos que nos acalentarão por toda a vida.

O pássaro definitivamente pousado na rua se erguerá aos céus infinitos, além 

das asas da nossa imaginação.

Ela é o ser que nos é dado em confiança e que nos perdoa as falhas da 

ignorância, da arrogância ou da simples insensatez, e que nos consola do mal 

que lhe fizemos, quando deveria ser consolado, como nos mostra o Lobinho 

de Jiam Rong, ao ver seu captor , o pai que conhecera desde o nascimento, 

prostrado em frustração e remorsos pela mal sucedida tentativa de criar um 

lobo selvagem como se fora um cãozinho:

“ Chen caiu no chão completamente desesperado. O filhote fez força para se 

levantar e se arrastar, até sentar diante dele com a boca aberta e a língua 

pendendo para o lado...e ele ficou ali sentado, olhando para Chen como quem 

contemplasse um velho lobo, como se quisesse lhe dizer alguma coisa. “

Fico com Alberto Caeiro, no Poema do Menino Jesus:

“E a criança que é tão humana que é divina

E esta minha vida cotidiana de poeta

E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,

E que o meu mínimo olhar me enche de sensação,

E o mais pequeno som, seja do que for,

Parece falar comigo.

A criança Eterna acompanha-me sempre.

A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.”

Eis que está aceito o desafio, e os conclamo a enfrentá-lo juntos, Pinochio, 

Mika, Mani, Homunculo, Euforion, Lobinho, até vocês...e vocês...e vocês...

REFERENCIAS:

CLÉMENT, Catherine. A viagem de Théo – Romance das religiões. Tradução: 

Eduardo Brandão. 2a reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

COLLODI, Carlo. As aventuras de Pinóquio. Tradução: Liliana e Michele 

Iacocca. São Paulo: Edições Paulinas, 1992.

DOMINGUES, Ivan. Desafios da filosofia século XXI: ciência e 

sabedoria. Kriterion - Revista de Filosofia. Vol. 47, no 113. Belo 

Horizonte- Junho de 2006. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/S0100-

512X2006000100001>. Acesso: 23 jul 2013. 

FREYRE, Gilberto. Casa-grande e senzala. 50a edição. São Paulo: Global 

editora, 2005. 

GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia – Romance da história da filosofia. 

Tradução: João Azenha Jr. 36a reimpressão. São Paulo: Companhia das 

Letras, 1999.

GOETHE, Johann Wolfgang von. Fausto. Tradução: Agostinho D’Ornellas. 

São Paulo: Editora Martin Claret, 2004.

HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Filosofia do Direito. Tradução: Paulo 

Meneses, et al. São Leopoldo: Editora Unisinos e Edições Loyola, 2010.

MENESES, Paulo Gaspar. Homilias Dominicais. Recife: FASA, 2010.

PESSOA, Fernando. O guardador de rebanhos – Poemas de Alberto Caieiro. 

São Paulo: Princípio Editora, 1997.

PROFECIA, A. Direção: John Moore. EUA, 2006. 110 min, son., color.

RONG, Jiang. O totem do lobo. Tradução: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: 

Sextante, 2008.

SAINT-EXUPERY, Antoine de. O pequeno príncipe. Tradutor: Dom Marcos 

Barbosa. 48a edição. Rio de Janeiro: Agir, 2006.

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