O Natal de Prometeu
Um Conto de Natal – 2010.
O Natal de Prometeu.
Aquela poderia ter sido uma noite semelhante a tantas outras passadas, menos sentidas. Seria, conforme aparentava, longa e fria; tolhedora de movimentos, musa de pensamentos. Um frio intenso dominava os ares, inibindo o acesso a rua e ao mundo. Chuva! Frio! Vento e mais vento, rugindo, afugentando...
No interior de um cubículo, um jovem solitário, agasalhado, aquecido por fora, pensa. Seus olhos se dirigem ao teto sem vê-lo, movem-se para um lado, sonhadores, mas não de esperança.Antes nostálgicos.
Livros enfileiram-se ao redor. Livros diversos, escritos muitos! Contos, romances, lendas, novelas; livros didáticos, técnicos, científicos; toda a grande família literária representada ali.
O jovem se levantou e tomou um dos livros entre as mãos, folheou-o rapidamente , tentou concentrar-se mas desistiu, atirando-o com enfado a um canto da sala. Muito gostaria se com o livro jogado fosse também sua angústia, mas tal não aconteceu.
Caminhou descoordenadamente, como um bailarino louco, descrevendo círculos e mais círculos ao redor de si. Seus olhos mais uma vez se voltaram para o teto, então como uma súplica, não atendida. Voltando-se outra vez aos companheiros letrados, encarou-os hostil e um jorro de palavras brotou de si, insensatamente. Mostrava suas chagas, falava das suas dores, sem esperança de efeito algum. Com gestos dramáticos, continuou seu discurso que jamais seria ouvido por ninguém...
- Vejam! Vejam o que fizeram de mim. Eu que tanto confiei em vocês, que de corpo e alma entreguei-me a atendê-los, a tomá-los como conselheiros.Curvei-me sobre suas páginas durante anos e permiti que ocupassem um lugar de destaque em minha vida. Que faço agora, parasitas? Tenho ainda a insensatez de lhes perguntar, falsos companheiros, amigos hipócritas, objetos inúteis.
Fantasias, coisas que não existem na vida real!
Por que não se apagam? Por que não desaparecem? Por que ficam aí, olhando-me calados, dando-me a impressão de que riem com ironia dos meus sentimentos? Para que servem vocês, afinal? Como seria bom jamais ter acreditado em contos de fada, em histórias de Natal.
O jovem desistiu e fazendo com a mão um gesto de abandono, tentou acalmar-se. Amante do silêncio do recolhimento, desejava que naquele instante alguém batesse à sua porta. Alguém com quem pudesse conversar, dividir seus pensamentos. Mas não havia consolo algum.
Próximo à sua mesa de trabalho, várias folhas de papel meio em branco, meio escritas, aguardavam e muitas outras amassadas transbordavam o cesto ao lado que se ria da impotência do escritor. As idéias fugiam-lhe impiedosas, brincando insensíveis com a ausência de inspiração...
Apagou as luzes e acendeu uma vela. Sentou-se ao chão como o fazia quando criança e fez um pedido ao Papai Noel em que já nem acreditava mais, chorando lágrimas sentidas de uma infância precocemente perdida.
As sensações do mau tempo foram aos poucos sumindo, dissolvendo-se no ar e já não havia trovões nem relâmpagos quando o jovem percebeu que estava acompanhado por uma personagem estranha.
Era uma mulher, grande, volumosa mesmo, cujas dimensões agigantadas não impediam em nada sua leveza de gestos. Movia-se com ares de senhora, de rainha. Todo o seu ser aristocrático denotava nobreza, esplendor no trato, nos gestos no olhar. A presença caminhou descrevendo uma coreografia fantástica, impressionando o jovem, que, extenuado, resolveu não reagir mas apenas observar aquele ser que lhe parecia familiar. Seu rosto austero era fascinante e iniciaria ele uma conversa, não tivesse o que lhe restava de bom senso lhe indicado que aquilo não era real.
Mas era quase palpável, pensou. Tentou estender a mão e tocar a venerável senhora, mas naquele momento percebeu que não era mais dono dos seus movimentos. Resolveu entregar-se a tudo e viver aquele momento que ao menos era novo e excepcional. Poderia ser apenas o sonho de um espírito cansado e descrente, mas era tão bonito!
A digna senhora caminhava altiva e a medida em que o fazia, desapareciam as paredes do lugar, aumentando os espaços que se estendiam ao infinito.
Uma outra figura entrou em cena; um homem desta vez, pequeno e magro, ligeiro. Parecia satisfeito com o que era, sem grandes pretensões, expressivo em suas reduzidas dimensões.
Aconteceu de se encontrarem. Pararam, olharam-se, mediram-se. O homem sorriu divertido. A senhora manteve-se inabalável. Para maior assombro do jovem prostrado, tinham vozes. Foi a senhora quem primeiro falou, dirigindo-se ao segundo personagem:
- Ora! O que faz aqui, meu rapaz? Você é...se não estou equivocada, o Conto, não é mesmo?
- Madame Lenda! Sou mesmo o Conto. Causo-lhe espanto?
- Oh, não! Você está sempre a se imiscuir em todos os lugares.
- Observo que há um leve toque de má vontade em sua voz, Lenda. Incomodo-a?
- Incomodar-me? Quanta presunção!
O Conto sorriu, meio encabulado, meio complacente. Sabia que teria de ser paciente com aquela digna senhora toda cheia de aspectos a ser interpretados, misteriosa e bela, cheia de vigor e paixão, dominante na história do mundo.
Teria definitivamente enlouquecido? – Perguntava-se o jovem que tentou falar mas não conseguiu. Todos aqueles anos de estudos e livros, escola e Escolas, fizeram-no de uma vez por todas perder a razão? Eram apenas perguntas curiosas, desprovidas de quaisquer indícios de angústia. Se aquilo fosse verdade, então estariam solucionados seus problemas de senso crítico, a coerência já não importaria e ele poderia habitar o mundo da fantasia sem ser chicoteado pelas torpezas da vida comum.
Naquele instante os dois personagens pareciam estar com problemas, pois apesar de tentarem ser gentis um com o outro, era evidente que os separava uma grande diferença. Voltou-se a Lenda ao Conto numa visível admoestação:
- Por que me olha como seu eu fosse uma figura mitológica , pequeno Conto? Quer parar de andar colado aos meus passos, sempre à minha sombra? Não vê que estou ocupada, tentando explicar o inexplicável? Como me aborrece os escritozinhos ligeiros como você, tão presunçosos, tentando simplificar, reduzir tudo. O que pensam que são?
- Mas eu não penso, Lenda. Eu sou. Não creio, porém, que a senhora queira realmente explicar o inexplicável.Ao contrário. De qualquer forma, quero render-lhe minhas homenagens, pela forma rica e imaginosa com que apresenta o mundo e os homens notáveis ao mundo e aos homens não notados.
- Acaso ouço um toque de sarcasmo em sua voz, pequeno Conto? Atreve-se você a desafiar a mim, a Lenda? Meu rapaz, você está confuso, comparando-me a uma das superficiais mulheres que povoam suas páginas.
- Não tomarei muito seu tempo, senhora Lenda. Como a senhora sabe, sou breve, quase telegráfico mas consigo sempre, em poucas palavras, dizer tudo o que diz outras obras em milhares de páginas.
- Sim, sim. Prossiga, pequenino!
- Será que a senhora não sente nem um pouco o mal que tem causado a esse pobre rapaz, aí largado no chão frente a luz de uma vela? Com sua internacionalidade, atemporalidade, atirou à cabeça do rapaz páginas e mais páginas de Hércules, Pégaso, Teseu e seu famoso Minotauro, Fadas Madrinhas...
- Mitológico, rapaz, mitológico; é de muito mal gosto essa história de Minotauro famoso, mas é de seu feitio falar assim e o que tem as Fadas Madrinhas?
- Desculpe-me. Mitológico, lendário, isso tudo acaba ficando famoso, mas deixe-me prosseguir. A senhora causou uma influência profundamente danosa. Fadas Madrinhas... Papai Noel...presentes que surgem do nada...ora faça-me o favor!
- Papai Noel, sim, por que não?
- Por que não! Esse Prometeu acorrentado aí está condenado a ficar, pelos séculos fora, morrendo aos poucos sem nunca morrer de verdade , pois é imortal, lamuriando-se para sempre. Quanta tolice e quanto desperdício de tempo, mente, juventude!
- E você se considera a solução para os problemas do nosso Prometeu, não é, meu jovem?
- Não é bem assim, senhora, mas muita coisa poderia ser evitada com sua ausência. Nem todos são heróis, semi-deuses ou deuses, conforme a senhora apresenta. A senhora tem fórmulas para concluir suas mensagens que com o tempo se tornaram obsoletas. No final, por maior que sejam os castigos impostos aos seus personagens, quase sempre terminam premiados por seus esforços. Mas não é aí que reside o verdadeiro problema. A senhora dá consciência e um certo grau de moralidade ao opressor. Ele reconhece o labor do oprimido. Põe-lhe obstáculos a sua vida, mas curvam-se perante o valor, a força da perseverança e do ideal elevado. Afasta, assim, a verdadeira face, a realidade dura e crua dos seres mesquinhos que, na maioria das vezes, represento-os eu, em meu conteúdo. A senhora volta-se para o grandioso, esquecendo-se de que existe o ordinário e com isso faz com que o ordinário se sinta mais ordinário ainda.
O conto teria continuado a falar, não fosse um gesto súbito da Lenda, que sem para ele se voltar mostrou-lhe a palma da mão, num pedido de espera, de pausa. A lenda manteve-se em silêncio. Parecia pensar e medir as palavras do Conto. Quando falou, sua voz transparecia algo de ternura, uma pequena dose de severidade, um que de crítica e um mundo de compreensão.
- E o que me diz, pequeno Conto, da sua Menina dos Fósforos? Parece-me que você está se perdendo em divagações, confundindo tudo.
- Quem?
- A sua Menina dos Fósforos, pequeno Conto. – Respondeu a Lenda, pacientemente. – Pobrezinha. É isso que você chama de realidade?. Não! Não fale agora. Apenas escute, por favor.
A Lenda abriu os braços numa completa dação de seu corpo e exposição das suas mãos, dos seus motivos. O jovem solitário sentiu-se chamado a amparar-se naquele seio convidativo, maternal; fazer parte daquele mundo que era apresentado com tão grandiosa mímica, tão rica em figuras de beleza ímpar. Como se ao abrir os braços descerrasse os véus do passado, da existência presente e do futuro, inúmeras figuras surgiram aos olhos do jovem, representando as imagens que lhe povoavam a mente. Um casal de índios apaixonados, desafiando um deus terrível, fugiam numa canoa de tronco, deslizando sobre um rio revolto e desaparecendo por entre as fúrias desencadeadas por aquele mesmo deus. Em uma outra cena, do corpo de uma indígena branca morta, surgia o alimento salvador das vidas dos de pele cor de bronze. Mais adiante, num desfile por ordem de entrada, uma jovem mirando um lago apaixona-se pela lua, julgando-a um grande e poderoso guerreiro que ela sabia estar acima de si mergulha em busca do seu amado, para surgir depois em forma de flor.
A espécie oriental fora comparada ao ser humano, vindo do lodo a emergir radiante. Por que a espécie ocidental tem que afundar para só depois vir à luz?
Cenas de luta e glória surgiam a cada instante. Solidão sem medo e sem carência; recolhimento por opção era demonstrada constantemente. Objetivos; prometedores de tempos melhores eram a tônica, o ideal que levava a situação desejada. E a Lenda, unindo as mãos, agasalhando-as uma a outra, levou-as em direção ao peito e tornou a falar.
- Você diz, pequeno Conto, que eu escondo a verdadeira face da vida, que negligencio a realidade, mas veja! Eu venho acompanhando o mundo desde os primórdios da sua curta existência e conto os fatos que a imaginação comum jamais poderá conceber e supondo que consiga, jamais poderá expressar.
Se uma vez ou outra dei à luz seres que se perdem em lamentações, dominados pela auto comiseração angustiante, a expressarem-se por monólogos que falam de si e da impiedade dos seus algozes - se assim são ingenuamente interpretados -, nada mais fiz que demonstrar a inexistência de seres que possam de bom grado assimilar as mensagens de injustiça e falar por aqueles que se encontram acorrentados, vitimas da pseudo justiça...
Mas eu conto histórias de notáveis, como tão bem você se expressou. Pergunto-lhe, pequeno: existe realmente ordinário e notável? Eu anuncio a luta de gigantes e os mostro como gigantes que são. Eu sito heróis e semi deuses e não acredito na existência dos que não o sejam, mas sim, daqueles que deixaram-no de ser e tento por meio do que digo mostrar que algo mais existe, muito além da nossa visão limitada. Não só demonstro aquilo que pode atingir mas a capacidade do esforço e do combate libertador; a possibilidade de vencer o invencível tido como tal.
Com páginas e páginas de figuras mitológicas influenciei negativamente o jovem ali, diz você. Por que, pequeno Conto? Por que é negativa minha influência? Por mostrar um mundo grandioso? Por mostrar que o aparentemente irreal, o fantástico, nada mais é que a suposta realidade desprovida de máscaras? Por que me acusa de uma coisa que eu não sou? -
O Conto, embaraçado, tentava disfarçar, mas disse impiedoso:
- Você, Lenda, fez com esse jovem pensasse que era um dos seus notáveis sem o ser.
- Sinto saudades, pequeno Conto, dos seus tempos de criança. Olhe para trás e diga-me, quem mais o iludiu, Conto Infantil?
E a Lenda que tudo pode, com um simples gesto fez retroceder o tempo. O Conto assustou-se mas não recuou ao contemplar seu passado. O jovem, pasmo, foi atirado do chão a um mundo de casinhas de açúcar e chocolate, florestas de doces e guloseimas, rios de mel, sem tempo ou distâncias, subiu colinas intransponíveis e deparou-se com belos e suntuosos castelos. Andou por suas paragens e parou em seus corredores. Transpôs escadarias de mármore branco salpicado de estrelas doiradas, encontrou-se com príncipes e princesas, brincou com cãezinhos e lutou com monstros terríveis. Protegeu ovelhas e rechaçou lobos ferozes.
O conto sorriu dos seus tempos idos. Parecia envergonhado, como um adulto impafioso que de repente se vê diante de uma foto sua, nu, brincando com um coelhinho de pelúcia, tão fofinho quanto ele próprio.
Não havia desafio na voz da Lenda, que soava tranqüila e bondosa ao perguntar:
- E então, pequeno Conto, o que me diz? Onde está o seu Patinho Feio?
- Heim?
- O seu Patinho Feio, querido Conto. Como foi lindo o momento em que ele descobriu-se um cisne. O mais belo dentre os seus. Por que não diz ao nosso Prometeu que um patinho feio é o que é e nada mais e que um cisne sempre o foi? Onde está a realidade, afinal?
- Eu era infantil. – Desculpou-se o Conto, e parecia triste.
A Lenda, compreensiva, aproximou-se e o abraçou, agasalhando-o de encontro ao seu grande coração. Sorria, mas uma lágrima brilhou e escorreu pela face da lenda, salpicando o chão com milhares de gotinhas refletindo a luz da vela, e Prometeu viu surgir um Romance muito elegante, mas visivelmente apreensivo com a hostilidade dos Compêndios Técnicos e Científicos que portavam luvas e capacetes, jalecos e capas pretas, armas e bisturis afiados, balanças e espadas de forma muito perigosa por que alguns tinham os olhos vendados.
Cada um tentava se impor e ao encontro daquele grupo barulhento surgiram Novelas, Crônicas, Dramas, Poesias, Prosas, Peças Teatrais e mesmo Roteiros. Até uma gigantescas Ópera se fez presente, bradando tão alto, mas tão alto mesmo e tão longamente que traía suas origens de povo esquecido, tentando fazer-se ouvir pelo imperador distante.
Formou-se uma grande confusão. O ar cada vez mais quente desmanchava a maquiagem das Peças e muitas tinham já o corpo à mostra. A Ópera já estava rouca. A Poesia se fora. Só o Drama continuava firme.
Os Compêndios Técnicos e Científicos resolveram que não tinham nada ver com aquela situação, não estavam ganhando nada com aquilo e nem se tratava de suas especialidades.Tentaram ir embora, mas não encontraram saída nenhuma.
Aos poucos o vozeirio foi se transformando em murmúrios e exclamações abafadas de ressentimentos e admiração, quando a Inspiração, uma ninfeta linda entrou em cena. Foi até ao jovem prostrado e o tomou no colo, acalentou-o, brincando com ele como se fosse um bebê, beliscando-lhe as bochechas, consolando-o. Precisara sair, mas já estava de volta, disse-lhe carinhosamente, e de mãos dadas caminharam pela sala que então converteu-se num imenso jardim e à sua passagem todos se curvavam em cumprimento, meio encabulados devido a confusão que se formara, sorrindo desajeitados.
Era um magnífico jardim, cheio de recantos acolhedores, fontes coloridas lagos, luzes, bancos e poltronas confortáveis tendo ao centro uma mesa gigantesca, cheia de lápis e papéis e para ela se dirigiu Prometeu, enquanto os livros ergueram vôo e foram pousar, em ordem, nas belas prateleiras formadas pelos galhos de vistosas árvores divisórias de onde pendiam cachos e ramalhetes de flores formando cascatas perfumadas de rara beleza, e de lá, arrumando suas páginas como se fossem penas e asas, observavam a trajetória do escritor.
Sentando-se à mesa, encimada por uma abóboda transparente que lhe permitia ver o cair da chuva sem se molhar, era iluminado pela luz das estrelas, suas amigas mais íntimas, tendo a seu lado a Inspiração e à frente a magestosa Lenda, ele escreveu.
Escreveu, enfim; enquanto na grande redoma que protegia o jardim, um veleiro branco singrava o mar calmo, peixinhos dourados brincavam num lago azul e cristalino, rindo como crianças eram seus borbulhos.
Estrelas de prata brilhando no ar.
Guizos de cristal, acalentando sonhos.
Era Natal, quando essas coisas acontecem.
O Natal de Prometeu.
Aquela poderia ter sido uma noite semelhante a tantas outras passadas, menos sentidas. Seria, conforme aparentava, longa e fria; tolhedora de movimentos, musa de pensamentos. Um frio intenso dominava os ares, inibindo o acesso a rua e ao mundo. Chuva! Frio! Vento e mais vento, rugindo, afugentando...
No interior de um cubículo, um jovem solitário, agasalhado, aquecido por fora, pensa. Seus olhos se dirigem ao teto sem vê-lo, movem-se para um lado, sonhadores, mas não de esperança.Antes nostálgicos.
Livros enfileiram-se ao redor. Livros diversos, escritos muitos! Contos, romances, lendas, novelas; livros didáticos, técnicos, científicos; toda a grande família literária representada ali.
O jovem se levantou e tomou um dos livros entre as mãos, folheou-o rapidamente , tentou concentrar-se mas desistiu, atirando-o com enfado a um canto da sala. Muito gostaria se com o livro jogado fosse também sua angústia, mas tal não aconteceu.
Caminhou descoordenadamente, como um bailarino louco, descrevendo círculos e mais círculos ao redor de si. Seus olhos mais uma vez se voltaram para o teto, então como uma súplica, não atendida. Voltando-se outra vez aos companheiros letrados, encarou-os hostil e um jorro de palavras brotou de si, insensatamente. Mostrava suas chagas, falava das suas dores, sem esperança de efeito algum. Com gestos dramáticos, continuou seu discurso que jamais seria ouvido por ninguém...
- Vejam! Vejam o que fizeram de mim. Eu que tanto confiei em vocês, que de corpo e alma entreguei-me a atendê-los, a tomá-los como conselheiros.Curvei-me sobre suas páginas durante anos e permiti que ocupassem um lugar de destaque em minha vida. Que faço agora, parasitas? Tenho ainda a insensatez de lhes perguntar, falsos companheiros, amigos hipócritas, objetos inúteis.
Fantasias, coisas que não existem na vida real!
Por que não se apagam? Por que não desaparecem? Por que ficam aí, olhando-me calados, dando-me a impressão de que riem com ironia dos meus sentimentos? Para que servem vocês, afinal? Como seria bom jamais ter acreditado em contos de fada, em histórias de Natal.
O jovem desistiu e fazendo com a mão um gesto de abandono, tentou acalmar-se. Amante do silêncio do recolhimento, desejava que naquele instante alguém batesse à sua porta. Alguém com quem pudesse conversar, dividir seus pensamentos. Mas não havia consolo algum.
Próximo à sua mesa de trabalho, várias folhas de papel meio em branco, meio escritas, aguardavam e muitas outras amassadas transbordavam o cesto ao lado que se ria da impotência do escritor. As idéias fugiam-lhe impiedosas, brincando insensíveis com a ausência de inspiração...
Apagou as luzes e acendeu uma vela. Sentou-se ao chão como o fazia quando criança e fez um pedido ao Papai Noel em que já nem acreditava mais, chorando lágrimas sentidas de uma infância precocemente perdida.
As sensações do mau tempo foram aos poucos sumindo, dissolvendo-se no ar e já não havia trovões nem relâmpagos quando o jovem percebeu que estava acompanhado por uma personagem estranha.
Era uma mulher, grande, volumosa mesmo, cujas dimensões agigantadas não impediam em nada sua leveza de gestos. Movia-se com ares de senhora, de rainha. Todo o seu ser aristocrático denotava nobreza, esplendor no trato, nos gestos no olhar. A presença caminhou descrevendo uma coreografia fantástica, impressionando o jovem, que, extenuado, resolveu não reagir mas apenas observar aquele ser que lhe parecia familiar. Seu rosto austero era fascinante e iniciaria ele uma conversa, não tivesse o que lhe restava de bom senso lhe indicado que aquilo não era real.
Mas era quase palpável, pensou. Tentou estender a mão e tocar a venerável senhora, mas naquele momento percebeu que não era mais dono dos seus movimentos. Resolveu entregar-se a tudo e viver aquele momento que ao menos era novo e excepcional. Poderia ser apenas o sonho de um espírito cansado e descrente, mas era tão bonito!
A digna senhora caminhava altiva e a medida em que o fazia, desapareciam as paredes do lugar, aumentando os espaços que se estendiam ao infinito.
Uma outra figura entrou em cena; um homem desta vez, pequeno e magro, ligeiro. Parecia satisfeito com o que era, sem grandes pretensões, expressivo em suas reduzidas dimensões.
Aconteceu de se encontrarem. Pararam, olharam-se, mediram-se. O homem sorriu divertido. A senhora manteve-se inabalável. Para maior assombro do jovem prostrado, tinham vozes. Foi a senhora quem primeiro falou, dirigindo-se ao segundo personagem:
- Ora! O que faz aqui, meu rapaz? Você é...se não estou equivocada, o Conto, não é mesmo?
- Madame Lenda! Sou mesmo o Conto. Causo-lhe espanto?
- Oh, não! Você está sempre a se imiscuir em todos os lugares.
- Observo que há um leve toque de má vontade em sua voz, Lenda. Incomodo-a?
- Incomodar-me? Quanta presunção!
O Conto sorriu, meio encabulado, meio complacente. Sabia que teria de ser paciente com aquela digna senhora toda cheia de aspectos a ser interpretados, misteriosa e bela, cheia de vigor e paixão, dominante na história do mundo.
Teria definitivamente enlouquecido? – Perguntava-se o jovem que tentou falar mas não conseguiu. Todos aqueles anos de estudos e livros, escola e Escolas, fizeram-no de uma vez por todas perder a razão? Eram apenas perguntas curiosas, desprovidas de quaisquer indícios de angústia. Se aquilo fosse verdade, então estariam solucionados seus problemas de senso crítico, a coerência já não importaria e ele poderia habitar o mundo da fantasia sem ser chicoteado pelas torpezas da vida comum.
Naquele instante os dois personagens pareciam estar com problemas, pois apesar de tentarem ser gentis um com o outro, era evidente que os separava uma grande diferença. Voltou-se a Lenda ao Conto numa visível admoestação:
- Por que me olha como seu eu fosse uma figura mitológica , pequeno Conto? Quer parar de andar colado aos meus passos, sempre à minha sombra? Não vê que estou ocupada, tentando explicar o inexplicável? Como me aborrece os escritozinhos ligeiros como você, tão presunçosos, tentando simplificar, reduzir tudo. O que pensam que são?
- Mas eu não penso, Lenda. Eu sou. Não creio, porém, que a senhora queira realmente explicar o inexplicável.Ao contrário. De qualquer forma, quero render-lhe minhas homenagens, pela forma rica e imaginosa com que apresenta o mundo e os homens notáveis ao mundo e aos homens não notados.
- Acaso ouço um toque de sarcasmo em sua voz, pequeno Conto? Atreve-se você a desafiar a mim, a Lenda? Meu rapaz, você está confuso, comparando-me a uma das superficiais mulheres que povoam suas páginas.
- Não tomarei muito seu tempo, senhora Lenda. Como a senhora sabe, sou breve, quase telegráfico mas consigo sempre, em poucas palavras, dizer tudo o que diz outras obras em milhares de páginas.
- Sim, sim. Prossiga, pequenino!
- Será que a senhora não sente nem um pouco o mal que tem causado a esse pobre rapaz, aí largado no chão frente a luz de uma vela? Com sua internacionalidade, atemporalidade, atirou à cabeça do rapaz páginas e mais páginas de Hércules, Pégaso, Teseu e seu famoso Minotauro, Fadas Madrinhas...
- Mitológico, rapaz, mitológico; é de muito mal gosto essa história de Minotauro famoso, mas é de seu feitio falar assim e o que tem as Fadas Madrinhas?
- Desculpe-me. Mitológico, lendário, isso tudo acaba ficando famoso, mas deixe-me prosseguir. A senhora causou uma influência profundamente danosa. Fadas Madrinhas... Papai Noel...presentes que surgem do nada...ora faça-me o favor!
- Papai Noel, sim, por que não?
- Por que não! Esse Prometeu acorrentado aí está condenado a ficar, pelos séculos fora, morrendo aos poucos sem nunca morrer de verdade , pois é imortal, lamuriando-se para sempre. Quanta tolice e quanto desperdício de tempo, mente, juventude!
- E você se considera a solução para os problemas do nosso Prometeu, não é, meu jovem?
- Não é bem assim, senhora, mas muita coisa poderia ser evitada com sua ausência. Nem todos são heróis, semi-deuses ou deuses, conforme a senhora apresenta. A senhora tem fórmulas para concluir suas mensagens que com o tempo se tornaram obsoletas. No final, por maior que sejam os castigos impostos aos seus personagens, quase sempre terminam premiados por seus esforços. Mas não é aí que reside o verdadeiro problema. A senhora dá consciência e um certo grau de moralidade ao opressor. Ele reconhece o labor do oprimido. Põe-lhe obstáculos a sua vida, mas curvam-se perante o valor, a força da perseverança e do ideal elevado. Afasta, assim, a verdadeira face, a realidade dura e crua dos seres mesquinhos que, na maioria das vezes, represento-os eu, em meu conteúdo. A senhora volta-se para o grandioso, esquecendo-se de que existe o ordinário e com isso faz com que o ordinário se sinta mais ordinário ainda.
O conto teria continuado a falar, não fosse um gesto súbito da Lenda, que sem para ele se voltar mostrou-lhe a palma da mão, num pedido de espera, de pausa. A lenda manteve-se em silêncio. Parecia pensar e medir as palavras do Conto. Quando falou, sua voz transparecia algo de ternura, uma pequena dose de severidade, um que de crítica e um mundo de compreensão.
- E o que me diz, pequeno Conto, da sua Menina dos Fósforos? Parece-me que você está se perdendo em divagações, confundindo tudo.
- Quem?
- A sua Menina dos Fósforos, pequeno Conto. – Respondeu a Lenda, pacientemente. – Pobrezinha. É isso que você chama de realidade?. Não! Não fale agora. Apenas escute, por favor.
A Lenda abriu os braços numa completa dação de seu corpo e exposição das suas mãos, dos seus motivos. O jovem solitário sentiu-se chamado a amparar-se naquele seio convidativo, maternal; fazer parte daquele mundo que era apresentado com tão grandiosa mímica, tão rica em figuras de beleza ímpar. Como se ao abrir os braços descerrasse os véus do passado, da existência presente e do futuro, inúmeras figuras surgiram aos olhos do jovem, representando as imagens que lhe povoavam a mente. Um casal de índios apaixonados, desafiando um deus terrível, fugiam numa canoa de tronco, deslizando sobre um rio revolto e desaparecendo por entre as fúrias desencadeadas por aquele mesmo deus. Em uma outra cena, do corpo de uma indígena branca morta, surgia o alimento salvador das vidas dos de pele cor de bronze. Mais adiante, num desfile por ordem de entrada, uma jovem mirando um lago apaixona-se pela lua, julgando-a um grande e poderoso guerreiro que ela sabia estar acima de si mergulha em busca do seu amado, para surgir depois em forma de flor.
A espécie oriental fora comparada ao ser humano, vindo do lodo a emergir radiante. Por que a espécie ocidental tem que afundar para só depois vir à luz?
Cenas de luta e glória surgiam a cada instante. Solidão sem medo e sem carência; recolhimento por opção era demonstrada constantemente. Objetivos; prometedores de tempos melhores eram a tônica, o ideal que levava a situação desejada. E a Lenda, unindo as mãos, agasalhando-as uma a outra, levou-as em direção ao peito e tornou a falar.
- Você diz, pequeno Conto, que eu escondo a verdadeira face da vida, que negligencio a realidade, mas veja! Eu venho acompanhando o mundo desde os primórdios da sua curta existência e conto os fatos que a imaginação comum jamais poderá conceber e supondo que consiga, jamais poderá expressar.
Se uma vez ou outra dei à luz seres que se perdem em lamentações, dominados pela auto comiseração angustiante, a expressarem-se por monólogos que falam de si e da impiedade dos seus algozes - se assim são ingenuamente interpretados -, nada mais fiz que demonstrar a inexistência de seres que possam de bom grado assimilar as mensagens de injustiça e falar por aqueles que se encontram acorrentados, vitimas da pseudo justiça...
Mas eu conto histórias de notáveis, como tão bem você se expressou. Pergunto-lhe, pequeno: existe realmente ordinário e notável? Eu anuncio a luta de gigantes e os mostro como gigantes que são. Eu sito heróis e semi deuses e não acredito na existência dos que não o sejam, mas sim, daqueles que deixaram-no de ser e tento por meio do que digo mostrar que algo mais existe, muito além da nossa visão limitada. Não só demonstro aquilo que pode atingir mas a capacidade do esforço e do combate libertador; a possibilidade de vencer o invencível tido como tal.
Com páginas e páginas de figuras mitológicas influenciei negativamente o jovem ali, diz você. Por que, pequeno Conto? Por que é negativa minha influência? Por mostrar um mundo grandioso? Por mostrar que o aparentemente irreal, o fantástico, nada mais é que a suposta realidade desprovida de máscaras? Por que me acusa de uma coisa que eu não sou? -
O Conto, embaraçado, tentava disfarçar, mas disse impiedoso:
- Você, Lenda, fez com esse jovem pensasse que era um dos seus notáveis sem o ser.
- Sinto saudades, pequeno Conto, dos seus tempos de criança. Olhe para trás e diga-me, quem mais o iludiu, Conto Infantil?
E a Lenda que tudo pode, com um simples gesto fez retroceder o tempo. O Conto assustou-se mas não recuou ao contemplar seu passado. O jovem, pasmo, foi atirado do chão a um mundo de casinhas de açúcar e chocolate, florestas de doces e guloseimas, rios de mel, sem tempo ou distâncias, subiu colinas intransponíveis e deparou-se com belos e suntuosos castelos. Andou por suas paragens e parou em seus corredores. Transpôs escadarias de mármore branco salpicado de estrelas doiradas, encontrou-se com príncipes e princesas, brincou com cãezinhos e lutou com monstros terríveis. Protegeu ovelhas e rechaçou lobos ferozes.
O conto sorriu dos seus tempos idos. Parecia envergonhado, como um adulto impafioso que de repente se vê diante de uma foto sua, nu, brincando com um coelhinho de pelúcia, tão fofinho quanto ele próprio.
Não havia desafio na voz da Lenda, que soava tranqüila e bondosa ao perguntar:
- E então, pequeno Conto, o que me diz? Onde está o seu Patinho Feio?
- Heim?
- O seu Patinho Feio, querido Conto. Como foi lindo o momento em que ele descobriu-se um cisne. O mais belo dentre os seus. Por que não diz ao nosso Prometeu que um patinho feio é o que é e nada mais e que um cisne sempre o foi? Onde está a realidade, afinal?
- Eu era infantil. – Desculpou-se o Conto, e parecia triste.
A Lenda, compreensiva, aproximou-se e o abraçou, agasalhando-o de encontro ao seu grande coração. Sorria, mas uma lágrima brilhou e escorreu pela face da lenda, salpicando o chão com milhares de gotinhas refletindo a luz da vela, e Prometeu viu surgir um Romance muito elegante, mas visivelmente apreensivo com a hostilidade dos Compêndios Técnicos e Científicos que portavam luvas e capacetes, jalecos e capas pretas, armas e bisturis afiados, balanças e espadas de forma muito perigosa por que alguns tinham os olhos vendados.
Cada um tentava se impor e ao encontro daquele grupo barulhento surgiram Novelas, Crônicas, Dramas, Poesias, Prosas, Peças Teatrais e mesmo Roteiros. Até uma gigantescas Ópera se fez presente, bradando tão alto, mas tão alto mesmo e tão longamente que traía suas origens de povo esquecido, tentando fazer-se ouvir pelo imperador distante.
Formou-se uma grande confusão. O ar cada vez mais quente desmanchava a maquiagem das Peças e muitas tinham já o corpo à mostra. A Ópera já estava rouca. A Poesia se fora. Só o Drama continuava firme.
Os Compêndios Técnicos e Científicos resolveram que não tinham nada ver com aquela situação, não estavam ganhando nada com aquilo e nem se tratava de suas especialidades.Tentaram ir embora, mas não encontraram saída nenhuma.
Aos poucos o vozeirio foi se transformando em murmúrios e exclamações abafadas de ressentimentos e admiração, quando a Inspiração, uma ninfeta linda entrou em cena. Foi até ao jovem prostrado e o tomou no colo, acalentou-o, brincando com ele como se fosse um bebê, beliscando-lhe as bochechas, consolando-o. Precisara sair, mas já estava de volta, disse-lhe carinhosamente, e de mãos dadas caminharam pela sala que então converteu-se num imenso jardim e à sua passagem todos se curvavam em cumprimento, meio encabulados devido a confusão que se formara, sorrindo desajeitados.
Era um magnífico jardim, cheio de recantos acolhedores, fontes coloridas lagos, luzes, bancos e poltronas confortáveis tendo ao centro uma mesa gigantesca, cheia de lápis e papéis e para ela se dirigiu Prometeu, enquanto os livros ergueram vôo e foram pousar, em ordem, nas belas prateleiras formadas pelos galhos de vistosas árvores divisórias de onde pendiam cachos e ramalhetes de flores formando cascatas perfumadas de rara beleza, e de lá, arrumando suas páginas como se fossem penas e asas, observavam a trajetória do escritor.
Sentando-se à mesa, encimada por uma abóboda transparente que lhe permitia ver o cair da chuva sem se molhar, era iluminado pela luz das estrelas, suas amigas mais íntimas, tendo a seu lado a Inspiração e à frente a magestosa Lenda, ele escreveu.
Escreveu, enfim; enquanto na grande redoma que protegia o jardim, um veleiro branco singrava o mar calmo, peixinhos dourados brincavam num lago azul e cristalino, rindo como crianças eram seus borbulhos.
Estrelas de prata brilhando no ar.
Guizos de cristal, acalentando sonhos.
Era Natal, quando essas coisas acontecem.
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